tech & talk
Ciência23 de set. de 2026, 20:56

Caldeira de Hunga revela por que vulcões pequenos fazem tsunamis gigantes

Novo imageamento do fundo do mar em Tonga mostra que a caldeira do vulcão Hunga afundou quase 1 km durante a erupção de 2022, deslocando um volume de rocha equivalente a 1.500 Grandes Pirâmides e amplificando o tsunami. O achado sugere que vulcões submarinos modestos podem esconder um risco de onda gigante desproporcional ao seu tamanho.

Por Letícia Prado · Repórter de Ciência

Compartilhar

Pra escala humana

Pra escala humana: o buraco que se abriu no fundo do oceano perto de Tonga em janeiro de 2022 aprofundou de cerca de 150 metros para até 850 metros — um afundamento de quase 1 quilômetro em questão de minutos, numa caldeira de aproximadamente 4 a 5 quilômetros de largura. O volume de rocha e sedimento deslocado nesse colapso, segundo o estudo, chega a 8,9 km³, dos quais 6,85 km³ vêm diretamente do desabamento da caldeira. É um volume equivalente a cerca de 1.500 vezes a Grande Pirâmide de Gizé afundando no mar de uma só vez.

O que está confirmado

O levantamento pós-erupção do vulcão Hunga, publicado na revista científica Nature Geoscience em setembro, usou imageamento do leito oceânico para reconstruir o que aconteceu sob a água durante a erupção climática de 15 de janeiro de 2022 — o desfecho de uma sequência que começou no fim de dezembro de 2021. Os dados batimétricos confirmam que o colapso da caldeira foi rápido e quase simultâneo à explosão principal, um mecanismo do tipo "pistão", em que o teto da câmara magmática cede de uma vez e empurra uma coluna enorme de água para cima.

Esse colapso, mostram os pesquisadores, foi responsável por parte relevante da energia do tsunami que atingiu ilhas em um raio de 100 km do vulcão com ondas de 18 a 40 metros de altura, mais destrutivas nas proximidades do que as geradas pela erupção do Krakatau em 1883 — evento que matou cerca de 30 mil pessoas na Indonésia. No caso de Hunga, o tsunami e a erupção resultaram em sete mortes registradas.

O que ainda é hipótese — e por que importa

Um dado chama atenção: apenas cerca de 30% do magma total envolvido na erupção foi de fato deslocado para fora do sistema. Ou seja, o colapso estrutural da caldeira — não só a quantidade de magma expelido — parece ter sido o fator decisivo na formação da onda. É esse ponto que ainda está sendo investigado: quanto do tamanho de um tsunami vulcânico depende da geometria e da velocidade do colapso, e não do volume total de material ejetado. Se a hipótese se confirmar em outros vulcões submarinos, ela reforça um alerta incômodo — estruturas relativamente pequenas no fundo do mar, sem o porte de um Krakatau, podem gerar ondas fora de proporção com seu tamanho aparente.

Um estudo complementar, publicado na revista Science Advances, mapeou o lado do alerta precoce: o colapso da caldeira gerou uma onda acústica subaquática — captada por estações sísmicas a milhares de quilômetros de distância — que viaja cerca de sete vezes mais rápido que o próprio tsunami. Monitorar esse tipo de sinal sonoro poderia, no futuro, dar minutos preciosos de antecedência a comunidades costeiras antes da chegada da onda, algo que ainda não existe de forma automatizada para tsunamis de origem vulcânica.

vulcões submarinostsunamihunga tongageologia marinhaalerta de tsunami
Compartilhar
Caldeira de Hunga revela por que vulcões pequenos fazem tsunamis gigantes | tech & talk