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Ciência18 de ago. de 2026, 16:54

Calor extremo torna pesticidas ainda mais perigosos para trabalhadores rurais

Pesquisas mostram que o calor deixa o corpo mais vulnerável a pesticidas e pode transformar esses compostos em substâncias ainda mais tóxicas. Nos EUA, o problema afeta 2,4 milhões de trabalhadores agrícolas.

Por Letícia Prado · Repórter de Ciência

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Pra escala humana: são 2,4 milhões de pessoas

É esse o tamanho da força de trabalho agrícola nos Estados Unidos exposta, todos os dias, a uma combinação que pesquisadores começam a entender melhor: calor extremo e pesticidas. Segundo reportagem da Inside Climate News, republicada pela Ars Technica, um corpo crescente de pesquisas mostra que o aquecimento global está tornando os agrotóxicos mais perigosos para quem trabalha na lavoura — e a tendência é piorar.

O que já está confirmado

A cientista Omanjana Goswami, do programa de Alimentos e Meio Ambiente da Union of Concerned Scientists, descreve mecanismos já documentados por estudos: o calor deixa o corpo mais vulnerável a substâncias tóxicas em geral, e o suor aumenta o tamanho dos poros da pele — o que facilita a absorção de pesticidas presentes no ar. "Você inala pelo nariz. E é exposto também por outros órgãos, como a pele", afirma.

Outro ponto confirmado: o calor eleva as taxas de evaporação, o que costuma levar à aplicação de mais pesticida nas lavouras — e, consequentemente, a mais exposição para quem trabalha nelas. Roupas de proteção, por sua vez, pioram o estresse térmico, e luvas de PVC usadas contra agrotóxicos podem se degradar em temperaturas mais altas, perdendo parte da barreira protetora.

O que ainda é hipótese em investigação

Pesquisadores apontam que o calor pode acelerar a transformação química de alguns pesticidas em compostos ainda mais tóxicos — um mecanismo citado como plausível e sob investigação, mas que a reportagem não detalha com dados de laboratório específicos por substância.

Os números por trás do alerta

A exposição crônica a pesticidas já é associada a câncer, depressão, diabetes, doenças neurodegenerativas e problemas reprodutivos, segundo a Union of Concerned Scientists. Estimativas da Agência de Proteção Ambiental dos EUA (EPA) e do órgão de fiscalização do governo (GAO) indicam que entre 10 mil e 300 mil trabalhadores agrícolas sofrem intoxicação aguda por pesticidas todos os anos no país — um intervalo tão largo porque a subnotificação nesse setor chega a 95%, por falta de acesso a plano de saúde, medo de retaliação e barreiras de idioma.

O recorte do calor por si só já é grave: trabalhadores rurais morrem por causas relacionadas a temperaturas extremas a uma taxa 20 vezes maior que a média de outras ocupações nos EUA. Entre 1992 e 2017, o calor matou 815 trabalhadores e feriu gravemente mais de 70 mil em todos os setores do país.

Por que isso importa agora

Com o aquecimento global elevando a frequência de ondas de calor, a combinação entre temperatura e exposição química deixa de ser um risco isolado e passa a ser um efeito cumulativo — e, segundo os pesquisadores ouvidos, ainda pouco considerado nas normas de proteção ao trabalhador rural.

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