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SegurançaIA09 de ago. de 2026, 20:23

Câmeras com IA que tentam prever crimes: como funcionam e os riscos

Sistemas de câmeras com inteligência artificial já são usados no Brasil para detectar comportamentos suspeitos antes de um crime acontecer, mas especialistas alertam para viés algorítmico, falsos positivos e falta de regulação específica.

Por Denise Sampaio · Repórter de Segurança

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O que aconteceu

Empresas brasileiras já operam câmeras equipadas com inteligência artificial capazes de identificar comportamentos considerados fora do padrão — como uma pessoa parada por tempo excessivo no mesmo local — e gerar alertas antes que um crime de fato ocorra. É o chamado policiamento preditivo, que converte imagens de vídeo em metadados e compara padrões de movimento com uma linha de base de normalidade.

Segundo reportagem do Olhar Digital, esses sistemas passam por um período de treinamento de cerca de duas semanas observando a rotina do local monitorado antes de começar a sinalizar desvios. Outra reportagem, do Metaverso, cita a empresa brasileira NoLeak, que afirma operar mais de 5 mil câmeras conectadas em condomínios e empresas, permitindo que um operador acompanhe até dez vezes mais câmeras com a mesma equipe. Quando o sistema detecta um movimento atípico, o alerta é enviado para um operador humano decidir se aciona a polícia ou uma equipe interna.

Foto: reprodução/olhardigital.com.br

Quem é afetado

A promessa é reduzir furtos, roubos e invasões em condomínios, empresas e áreas públicas. Mas o mesmo mecanismo que promete antecipar crimes pode transformar pessoas comuns em alvo de abordagem indevida por causa de um falso positivo — como ficar parado numa calçada esperando alguém.

O risco mais citado por especialistas é o de viés algorítmico. Nos Estados Unidos, o sistema PredPol levou policiais a patrulhar ainda mais bairros de renda baixa e com menor proporção de moradores brancos, reforçando um padrão de vigilância desigual — a ferramenta acabou sendo descontinuada em Los Angeles em 2020. Fernanda Rodrigues, do IRIS-BH, citada pelo Metaverso, defende transparência e auditorias independentes, lembrando que sistemas semelhantes reforçaram a vigilância em bairros de baixa renda em outros países.

Foto: reprodução/metaverso.app.br

No Brasil ainda não existe legislação específica para policiamento preditivo. Uma portaria do Ministério da Justiça, de 2025, exige revisão humana quando há risco a direitos fundamentais, e há um projeto de lei em discussão que pretende classificar esses sistemas como de "alto risco", exigindo avaliação de impacto e supervisão humana.

O que fazer agora

Se você mora ou trabalha em um condomínio ou empresa que já usa (ou pretende usar) câmeras com IA preditiva, vale ficar atento a alguns pontos:

  • Pergunte sobre auditoria independente: peça ao síndico ou gestor se o fornecedor da tecnologia passou por avaliação externa de viés e precisão.
  • Exija revisão humana no processo: um alerta gerado por IA nunca deveria resultar em abordagem sem confirmação de uma pessoa.
  • Verifique a base legal: sob a LGPD, o tratamento de imagens para esse fim precisa ter finalidade clara e informada aos monitorados.
  • Acompanhe a regulação: o projeto de lei que classifica esses sistemas como de alto risco ainda está em tramitação — fique de olho em como ele avança.

A tecnologia pode, sim, ajudar a evitar crimes. O ponto de atenção é garantir que ela não vire uma forma automatizada de discriminar quem já é mais vigiado.

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