tech & talk
Ciência26 de out. de 2026, 23:07

Canais de irrigação? Como um erro do século 19 criou o mito marciano

Em 1877, o italiano Giovanni Schiaparelli batizou feições de Marte de 'canali' — e uma tradução equivocada para 'canals' no inglês inflou um mito de engenharia marciana que só caiu por terra quase um século depois.

Por Letícia Prado · Repórter de Ciência

Compartilhar

Pra escala humana

Imagine olhar para um ponto de luz a mais de 55 milhões de quilômetros de distância, através de um telescópio de 22 centímetros — menor que uma bola de basquete —, e dali tentar desenhar o mapa de um mundo inteiro. Foi isso que o astrônomo italiano Giovanni Schiaparelli (1835-1910, diretor do Observatório de Brera, em Milão) fez em 5 de setembro de 1877, durante uma aproximação favorável de Marte à Terra.

O que é fato confirmado

Schiaparelli registrou, em seus mapas, longas linhas retas cruzando a superfície marciana — algumas estimadas em até 3.000 km de extensão. Ele as chamou de 'canali', termo italiano que significa simplesmente 'canais' ou 'sulcos', sem implicar origem artificial. O problema veio na tradução: ao migrar para o inglês como 'canals' (e não o mais neutro 'channels'), a palavra passou a sugerir estruturas construídas — e não acidentes naturais do terreno ou, como se descobriria depois, ilusões ópticas.

Onde a hipótese tomou vida própria

Quem transformou a observação em mito foi o astrônomo americano Percival Lowell (1855-1916, empresário de Boston que se dedicou à astronomia e fundou observatório próprio no Arizona). Entre 1895 e 1908, Lowell publicou três livros — 'Mars', 'Mars and Its Canals' e 'Mars As the Abode of Life' — defendendo que os canali eram obras de engenharia: uma rede de irrigação construída por uma civilização marciana inteligente para levar água do gelo polar até oásis agrícolas em regiões áridas. Foi pura especulação, sem confirmação observacional direta — mas ganhou tração popular, inclusive com perfil no New York Times.

Como a ciência desmontou o mito

A desconstrução foi gradual. Já em 1909, o astrônomo Eugène Antoniadi, usando um telescópio maior em Meudon, na França, não conseguiu identificar canal nenhum durante nova oposição de Marte. O golpe final veio em 1965, com a sonda americana Mariner 4: as primeiras fotos de perto do planeta mostraram uma superfície coberta de crateras de impacto, atmosfera rarefeita e temperaturas hostis — nada de canais, oásis ou vegetação. Hoje, historiadores da ciência tratam o episódio como um caso clássico de ilusão perceptiva somada a um deslize de tradução: o olho humano, no limite da resolução óptica da época, conectou pontos que pareciam retas. A busca por vida em Marte continua — mas hoje é trabalho da astrobiologia, focada em possíveis vestígios microbianos do passado, não em engenheiros marcianos.

marteastronomiahistória da ciênciavida extraterrestreexploração espacial
Compartilhar