
Carro elétrico vira gerador e salva votação em cidade do Paraná
Temporal deixou 94 municípios paranaenses sem luz no 1º turno de 2026, mas um veículo elétrico da BYD improvisou energia para as urnas de Salto do Lontra. O episódio reacende a pergunta: por que a infraestrutura elétrica ainda falha justamente no dia da eleição?
Por Camila Furtado · Repórter de Smart Cities
Quando o carro virou gerador
Na manhã de 4 de outubro, enquanto um temporal com rajadas fortes de vento derrubava a energia em diversas cidades do Paraná, uma cena em Salto do Lontra, no sudoeste do estado, chamou atenção de quem acompanhava o primeiro turno das eleições 2026. A queda de luz ameaçou travar o uso das urnas eletrônicas no cartório eleitoral do município. A solução veio de um lugar inusitado: um carro elétrico da BYD, montadora chinesa que vem ampliando a presença no mercado brasileiro, enviado pelo Tribunal Regional Eleitoral do Paraná (TRE-PR) para alimentar o local.
Como a tecnologia V2L entrou em cena
Foto: reprodução/autopapo.com.br
O veículo usa a tecnologia V2L (Vehicle-to-Load), que converte a energia armazenada na bateria em corrente alternada, disponível em tomadas comuns por meio de um adaptador conectado à porta de recarga. Na prática, o carro funcionou como um power bank gigante, e, segundo o presidente do TRE-PR, Luciano Carrasco Falavinha Souza, "uma urna eletrônica foi carregada com um carro elétrico em Salto do Lontra". O tribunal, porém, não divulgou o modelo exato do veículo, a potência fornecida nem por quanto tempo ele ficou conectado — detalhe que, convenhamos, importa para quem quer entender se isso é solução de verdade ou só um susto bem resolvido.
Um problema maior que um carro resolve só às vezes
O apagão não foi um caso isolado: 94 municípios paranaenses perderam energia, mais de 220 mil eleitores foram afetados e o número de consumidores sem luz chegou a passar de 300 mil no início da votação, segundo o TRE-PR. Na maioria dos locais, a saída foi torcer pela bateria interna das próprias urnas, que funcionam por um tempo limitado sem rede elétrica. Em Goiás, outra solução de ocasião foi improvisada: um inversor conectado à bateria de uma viatura policial.
Fica a pergunta que pouca gente faz: se um temporal de outubro consegue tirar do ar o cartório eleitoral de um município, o que isso diz sobre a resiliência da rede elétrica local fora dos dias de eleição? A Copel, concessionária de energia do estado, trabalhou na reparação desde a véspera até o dia da votação, mas o episódio reforça a dúvida sobre quem fiscaliza se a infraestrutura elétrica de cidades pequenas está preparada para eventos climáticos cada vez mais frequentes. Um carro elétrico salvou a votação em Salto do Lontra — mas depender de um TRE ter um veículo disponível na hora certa não parece exatamente uma política pública de energia.