
Casa Branca copia Tetris para jogo anti-imigração e apaga tudo após pressão
O site de propaganda 'arcade' da Casa Branca lançou um clone de Tetris batizado de 'Build the Wall', em que blocos formam um muro contra uma 'horda zumbi' na fronteira. Depois que a The Tetris Company negou qualquer envolvimento e falou em infração de direitos autorais, o jogo saiu do ar.
Por Théo Ramos · Repórter de Games
Um Tetris que ninguém pediu
Se tem um caso que resume bem o tamanho do puxadinho, é este. No começo de setembro, a Casa Branca, sede do governo dos Estados Unidos, lançou o Arcade.gov, um site com minijogos estilo fliperama para promover políticas do governo Trump. Entre eles estava o "Build the Wall": você empilha blocos que caem, exatamente como em Tetris, só que aqui o objetivo é erguer um muro na "Fronteira Sul" para barrar uma "horda zumbi". Diferente do original, as linhas completas não somem — a parede só cresce, num visual synthwave com direito a placa de fronteira e zumbis neon quicando na estrutura.
Ou seja: pegaram a mecânica mais reconhecível da história dos videogames e vestiram com uma narrativa anti-imigração. Não é preciso ser fã de longa data para sentir o desconforto.
A Tetris Company não deixou barato
Quem segue o mercado de games sabe que a The Tetris Company, detentora da marca Tetris nos Estados Unidos e responsável por licenciar o jogo há mais de quatro décadas, não é de ficar quieta quando alguém mexe com sua propriedade intelectual. A empresa já processou clones, forçou remoção de dezenas de jogos de lojas como a da Apple e do Google ao longo dos anos 2000 e 2010, e venceu um caso histórico contra a desenvolvedora Xio Interactive em 2012, que abriu precedente sobre proteção do "look and feel" de um jogo por direitos autorais.
Desta vez a empresa foi direta: publicou nota dizendo que não teve qualquer participação na criação do "Build the Wall" e que não autorizou nem licenciou a marca ou a propriedade intelectual da Tetris para o projeto. O comunicado ainda cravou o recado que todo criador gostaria de poder dar: "levamos infrações de direitos autorais muito a sério" — e completou que "acreditamos no poder da conexão e em unir as pessoas, não em dividi-las".
O jogo saiu do ar, mas o precedente incomoda
Quatro dias depois da declaração da Tetris Company, a Casa Branca removeu o "Build the Wall" do Arcade.gov, sem grande alarde. Bom para quem defende que propriedade intelectual não é detalhe burocrático: mesmo um governo pode ser obrigado a recuar quando usa indevidamente uma marca que não é sua.
Mas o episódio expõe algo maior que incomoda a comunidade de jogadores e desenvolvedores: um site oficial de governo usar mecânicas copiadas de um clássico querido para vender uma mensagem política pesada é o tipo de atalho que passa por cima tanto de quem criou o jogo original quanto de quem só queria jogar algo sem embutir propaganda. Ficou a lição — e a pergunta sobre por que ninguém checou isso antes de publicar.
Atualização (08/09, 21:44): Atualização: A Tetris Company se manifestou publicamente sobre o caso, afirmando que "não esteve envolvida na criação do 'Build the Wall'" e que "leva a infração de direitos autorais muito a sério". O jogo, que replicava a mecânica clássica de empilhar blocos do Tetris com o objetivo de "construir um muro" para bloquear um suposto "cerco de zumbis na fronteira", estava hospedado na seção whitehouse.gov/arcade/ e agora retorna erro 404 no endereço.
Apesar da remoção do jogo, outro título da mesma arcade digital da Casa Branca, chamado "Rio Run", segue disponível no site. Nele, o jogador controla um personagem masculino branco cujo objetivo é deportar personagens que representam imigrantes. A TechCrunch informou ter solicitado comentário à Casa Branca sobre o caso, mas não obteve resposta até a publicação.