
CEO da Cerebras rebate discurso apocalíptico e aposta em IA em casa
Andrew Feldman defendeu no TechCrunch Disrupt mais atenção aos benefícios da IA e previu assistentes pessoais rodando em casa 'num futuro não tão distante'.
Por Elias Brandão · Analista de IA e ética
Os dois lados do discurso
No palco do TechCrunch Disrupt, a maior conferência de startups dos Estados Unidos, realizada em outubro em São Francisco, o CEO e cofundador da Cerebras, Andrew Feldman — empresa que fabrica chips especializados para treinar modelos de IA e tem clientes como OpenAI, Figma e a farmacêutica GSK — decidiu ir contra a corrente do próprio setor em dois pontos.
Ponto um: o alarmismo está ofuscando os benefícios
Feldman criticou o que chama de discurso "apocalíptico" sobre os riscos da inteligência artificial, dizendo que esse tom está abafando o debate sobre os benefícios concretos da tecnologia. "Não acho que existam tecnologias poderosas que não venham com o desafio de 'o que acontece quando tecnologias poderosas caem nas mãos de pessoas más'", disse, reconhecendo o risco sem acatar o tom de emergência. Como contraponto, ele citou um exemplo otimista: a geração atual pode "nunca conhecer alguém que morre de câncer", graças a avanços de IA na área médica. Para ele, a saída não é silenciar o debate, mas cobrar "regulação mais inteligente" e mais participação da comunidade nas decisões sobre data centers — ou seja, ele não descarta risco nem regulação, só discorda do tom.
Ponto dois: a IA vai virar eletrodoméstico
Na segunda fala, Feldman apostou que estamos perto de um momento em que todo mundo terá um assistente pessoal de IA em casa, funcionando como qualquer outro eletrodoméstico. "Isso não está tão longe assim", afirmou, citando como exemplo de avanço os agentes de consumo da própria Meta e a startup de assistentes de IA Instinct, avaliada em US$ 10 bilhões. Segundo ele, o modelo deve funcionar como o celular hoje: "parte do trabalho no próprio aparelho, parte voltando para a nuvem" — com acesso, inclusive, a cartões de crédito para fazer compras em nome do usuário, dentro de um "perímetro de segurança" que ele não detalhou tecnicamente.
Foto: reprodução/techcrunch.com
O que falta responder
Feldman não é um executivo neutro no debate — a Cerebras vende justamente a infraestrutura que alimenta esse futuro de IA onipresente que ele descreve. Falta saber quem vai garantir esse "perímetro de segurança" dos assistentes domésticos com acesso a dados financeiros, e se a regulação "mais inteligente" que ele pede vai vir antes ou depois desses produtos chegarem às casas.