
CEO da Splice diz que e-mails de IA estão matando a conversa real
Kakul Srivastava, CEO da plataforma de samples Splice, defende que textos gerados por inteligência artificial no trabalho empobrecem a comunicação entre pessoas — mas faz ressalvas sobre onde a IA generativa pode, sim, ajudar os criadores.
Por Elias Brandão · Analista de IA e ética
Pense naquele colega que manda um e-mail impecável, bem argumentado, cheio de parágrafos redondinhos — e que, no fundo, você sabe que foi o ChatGPT quem escreveu. Pois é exatamente esse incômodo que Kakul Srivastava, CEO da Splice, colocou no centro de uma entrevista recente ao site americano The Verge. A Splice, para quem não é do meio musical, é uma plataforma de samples e loops usada por produtores do mundo todo para montar batidas e arranjos — seus sons já apareceram em faixas de nomes como Sabrina Carpenter e Lisa. Antes de assumir o comando da empresa, Srivastava passou por gigantes como Flickr, Yahoo, GitHub e Adobe, o que lhe deu uma visão de dentro de como a tecnologia muda — ou destrói — a forma como as pessoas se falam.
O problema não é a IA, é a dúvida
Em bom português: o argumento de Srivastava não é que a inteligência artificial seja, em si, uma vilã. É que ela introduz uma dúvida corrosiva em qualquer troca de mensagens. Como ela resume na entrevista, "quando você não consegue saber se existe uma pessoa de verdade por trás das palavras, a conversa que você tem sobre aquilo se torna uma conversa diferente — e pior". É como receber um bilhete de desculpas e não saber se foi escrito com o coração ou copiado de um livro de etiqueta: o gesto perde o peso.
Na Splice, que opera no modelo remoto, esse cuidado tem efeito prático. A empresa depende de documentos escritos com atenção, que depois são discutidos a fundo pela equipe — e é desse processo, segundo a CEO, que nascem as melhores decisões. Um texto gerado em dois cliques, sem reflexão de quem assina, tira a substância desse debate.
Os dois lados da moeda
Srivastava não se declara "entusiasta de IA", mas também não é do tipo que joga toda a tecnologia no lixo. A IA generativa "de prateleira", aquela que promete resolver tudo com um clique, ela classifica sem rodeios como "simplesmente não boa o suficiente" — na comunicação escrita e também na música.
Aqui entra a outra ponta do argumento: a Splice tem um produto próprio de IA, o Create, que analisa o áudio que o produtor já está construindo e sugere sons do catálogo da empresa — mais de 1 milhão de downloads de samples por dia, gravados em mais de 300 instrumentos e 130 gêneros — para completar a ideia. A diferença, para ela, é que a ferramenta remove barreira técnica sem substituir a decisão criativa de quem está no comando.
Seu lema resume a aposta: "confie nos artistas". Ela lembra que, historicamente, toda vez que uma tecnologia nova caiu nas mãos de criadores — caso de Daft Punk e Stevie Wonder —, o resultado surpreendeu. A mensagem final de Srivastava é um convite à pausa: usar IA para destravar o processo criativo, sim; terceirizar para ela a parte humana da conversa — seja uma letra de música, seja um e-mail de trabalho —, não.