
CEO do trem-bala da Califórnia sai em meio a escândalo de gastos
Ian Choudri deixou a liderança da autoridade estatal do trem de alta velocidade californiano depois que um relatório oficial apontou centenas de milhares de dólares em despesas irregulares de viagem. O projeto, que já consumiu bilhões, segue sem data de conclusão.
Por Camila Furtado · Repórter de Smart Cities
Depois de pouco mais de dois anos no comando, Ian Choudri renunciou em 28 de outubro à presidência da California High-Speed Rail Authority (a autoridade estatal californiana responsável por planejar e construir a linha de trem de alta velocidade que deveria ligar Los Angeles a San Francisco). Em carta de demissão, ele citou "prioridades pessoais e familiares" — mas o contexto em volta da saída sugere que a pressão política pesou mais do que o comunicado oficial admite.
O relatório que acendeu o alerta
Em 15 de setembro, o Office of Inspector General (órgão de auditoria interna da autoridade) publicou um relatório apontando quase US$ 600 mil em despesas de viagem de consultores consideradas irregulares pelas regras estaduais — incluindo gastos em casa noturna, escape room, bar tiki e charutaria, segundo reportagens americanas. Diante da repercussão, o conselho da autoridade já havia retirado de Choudri, ainda em outubro, o poder de aprovar sozinho contratos abaixo de US$ 25 milhões, passando a exigir aval de advogados internos para qualquer contrato novo ou em vigor.
Foto: reprodução/americanbazaaronline.com
Com sua saída, o conselho nomeou Joe Stephenshaw, diretor do Departamento de Finanças da Califórnia, como CEO interino a partir de 29 de outubro.
Um projeto que já custa mais do que se fiscaliza
A pergunta que todo contribuinte californiano devia fazer é: quem está de olho no dinheiro enquanto o trem não sai do papel? O projeto enfrenta ainda um buraco financeiro mais grave que o escândalo de viagens: o governo Trump cancelou cerca de US$ 4 bilhões em repasses federais já aprovados, e a única fonte de receita garantida hoje é o US$ 1 bilhão anual do programa estadual de comércio de carbono (cap-and-invest), previsto até 2045. Segundo o próprio Inspector General, a autoridade pode ficar sem caixa já em dezembro de 2027, enquanto os custos projetados de juros de títulos da dívida variam entre US$ 3,6 bilhões e US$ 6,6 bilhões.
Mesmo em meio à crise, a autoridade seguiu fechando contratos grandes: a Siemens Mobility recebeu, também em 28 de outubro, um contrato de US$ 772 milhões para fornecer três composições de trem, peças e manutenção por dez anos. Para quem acompanha o caso há anos, o contraste chama atenção — dinheiro escasso, prazo incerto, mas novos compromissos bilionários assinados no mesmo dia da saída do CEO.
Com eleição para governador da Califórnia no horizonte do próximo ano, políticos como Xavier Becerra já defendem que o projeto "precisa parecer bem diferente" para recuperar a confiança pública — frase que resume o desafio de qualquer obra de infraestrutura de longuíssimo prazo: sem fiscalização visível e resultado palpável, o apoio político e popular se esgota antes do trilho chegar.