
Cérebro de mosca-macho é mapeado por completo e completa par de conectomas
Pesquisadores concluíram o mapa neuronal completo do cérebro e da medula nervosa ventral de uma mosca-macho, formando com o conectoma feminino de 2024 o primeiro par completo do tipo já produzido para um animal adulto.
Por Letícia Prado · Repórter de Ciência
Pra escala humana: o cérebro de uma mosca-das-frutas cabe na cabeça de um alfinete, mas o mapa completo de suas conexões neuronais acaba de se tornar, junto com o par feminino já existente, uma das ferramentas mais detalhadas da neurociência para entender como circuitos cerebrais geram comportamento.
O que foi confirmado
Um consórcio internacional de pesquisa liderado pelo Janelia Research Campus, braço de pesquisa biomédica do instituto médico americano HHMI (Howard Hughes Medical Institute), publicou o conectoma completo do sistema nervoso central de uma mosca-macho da espécie Drosophila melanogaster. O mapa cobre o cérebro inteiro, os dois lobos ópticos e a medula nervosa ventral — o equivalente à espinha dorsal do inseto — somando mais de 166 mil neurônios e 125 milhões de conexões sinápticas catalogadas, segundo o estudo publicado na revista científica Cell sob o título "Sexual dimorphism in the complete connectome of the Drosophila male central nervous system".
O trabalho complementa o conectoma da mosca-fêmea divulgado em 2024 pelo consórcio FlyWire, projeto colaborativo internacional coordenado por pesquisadores da Universidade Princeton. Juntos, os dois mapas formam o primeiro par completo de conectomas macho e fêmea já produzido para o sistema nervoso central de um animal adulto.
O que ainda é hipótese
Ter os dois sexos mapeados permite comparar diretamente onde os circuitos neurais divergem entre macho e fêmea — por exemplo, nas redes que controlam cortejo e agressividade, comportamentos que diferem visivelmente entre os sexos da espécie. Mas a extensão exata de como essas diferenças estruturais se traduzem em diferenças de comportamento ainda é objeto de investigação; os pesquisadores descrevem o mapa como uma base para testar hipóteses, não como uma explicação pronta de causa e efeito.
Por que importa
A Drosophila é um dos organismos-modelo mais usados em laboratórios de biologia há mais de um século, servindo de base para estudos sobre genética, doenças neurológicas e funcionamento de circuitos cerebrais que depois orientam pesquisas em sistemas nervosos mais complexos, incluindo o humano. Com os dois conectomas completos e publicamente disponíveis, cientistas do mundo todo podem agora rastrear qualquer neurônio do cérebro da mosca desde o estímulo sensorial — visual, olfativo ou auditivo — até a resposta motora final, algo que nenhum outro conectoma completo de sistema nervoso central adulto oferece atualmente.