
Character.AI pede recuperação judicial e negocia venda de ativos à Disney
A Character Technologies, dona do chatbot de personagens por IA, entrou com pedido de Chapter 11 nos EUA e indicou a Disney como compradora preferencial de parte dos ativos, por US$ 20 milhões.
Por Otávio Meireles · Repórter de Mercado
O número que importa: US$ 20 milhões
A Character Technologies, dona da plataforma Character.AI — serviço que deixa qualquer usuário criar e conversar com personagens de IA, de figuras históricas a avatares para roleplay —, entrou nesta semana com um pedido de Chapter 11, o equivalente americano a uma recuperação judicial, em um tribunal de Delaware. No mesmo movimento, a empresa indicou a Disney como "stalking horse bidder": uma oferta de referência de US$ 20 milhões (cerca de R$ 99,7 milhões) por uma licença não exclusiva e perpétua de parte da propriedade intelectual e de certos direitos da companhia.
Como funciona o leilão
Foto: reprodução/hollywoodreporter.com
A oferta da Disney não fecha o negócio — ela só define o preço mínimo do leilão judicial, estimulando outros interessados a apresentar propostas maiores em vez de esperar a disputa andar sozinha. O processo é supervisionado pela Justiça americana e deve se encerrar entre o fim de novembro e o início de dezembro de 2026. Segundo o pedido, a Character Technologies listou entre US$ 50 milhões e US$ 100 milhões em ativos e também em passivos.
De unicórnio a recuperação judicial
A trajetória da empresa mostra a distância entre o hype e o caixa: uma rodada em março de 2023 avaliou a Character.AI em cerca de US$ 1 bilhão, e um acordo de licenciamento e contratação de equipe fechado com o Google em 2024 — que pagou os investidores iniciais — chegou a embutir uma valorização de US$ 2,5 bilhões, segundo a Bloomberg. O colapso veio em paralelo a processos judiciais que acusam a plataforma de falhar em proteger usuários menores de idade, um dos fatores que afastou novos aportes.
O que continua funcionando
O CEO Colin Adams afirmou que o processo "supervisionado pelo tribunal oferece à empresa a melhor oportunidade de maximizar o valor para todas as partes interessadas". A companhia promete manter a plataforma no ar com interrupções mínimas enquanto a venda corre — mas, se nenhum comprador topar assumir a operação do serviço, o Character.AI pode simplesmente ser desligado.
Quem ganha e quem perde
Pra Disney, o acordo é barato: US$ 20 milhões por direitos de propriedade intelectual é troco pra uma companhia que fatura na casa das dezenas de bilhões por ano, e dá à casa do Mickey uma porta de entrada em tecnologia de chatbot de personagens — território que a empresa já cogita explorar com suas próprias marcas. Pra quem apostou no boom de "IA generativa de personagem" como o próximo grande mercado de consumo, o caso é um alerta: ter milhões de usuários não paga as contas sem um modelo de receita sólido por trás.
Fica a pergunta que o leilão ainda não respondeu: haverá comprador disposto a manter o serviço rodando, ou os personagens da Character.AI vão simplesmente desaparecer em dezembro?
Atualização (13/10, 16:14): Atualização (13/10/2026): A Disney apresentou uma proposta de US$ 20 milhões por parte dos ativos do Character.AI, incluindo uma licença não exclusiva de propriedade intelectual e suporte de transição. A Disney Worldwide Services foi designada como a "stalking horse bidder", ou seja, sua oferta serve como parâmetro mínimo de referência para eventuais propostas concorrentes no processo de recuperação judicial supervisionado pela Justiça americana.
A proposta não significa que a Disney já tenha comprado a Character.AI: o valor pode ser superado por outros interessados ao longo do processo judicial. A plataforma continua operando normalmente por ora, mas a própria empresa admite que pode encerrar o serviço caso nenhuma oferta surja que viabilize a continuidade das operações. A conclusão do processo de venda dos ativos é esperada entre o fim de novembro e o início de dezembro de 2026.
Atualização (13/10, 19:09): A proposta da Disney pela Character.AI tem valor definido: US$ 20 milhões. Pelo acordo, a Disney pagaria essa quantia por parte dos ativos da empresa, incluindo uma licença não exclusiva e perpétua sobre a tecnologia e propriedade intelectual da Character.AI, além de determinadas reivindicações legais.
A oferta da Disney funciona como um “stalking horse bid” — um lance inicial que estabelece o preço mínimo em um leilão judicial, permitindo que outros interessados façam propostas maiores antes da aprovação final pela Justiça. A Character.AI, que já havia recebido uma notificação da Disney em setembro de 2025 por uso não autorizado de personagens protegidos por direitos de autor, espera concluir a venda de todos os seus ativos entre o final de novembro e o início de dezembro.
Atualização (14/10, 01:01): A oferta da Disney pela tecnologia de chatbot da Character.AI tem valor definido: US$ 20 milhões, numa posição conhecida como "stalking horse bidder" — ou seja, a Disney define o piso mínimo do leilão de ativos dentro do processo de recuperação judicial (Chapter 11), sem necessariamente levar a empresa inteira. Trata-se de uma licença não exclusiva e permanente sobre parte da propriedade intelectual da Character.AI, que continuaria livre para licenciar a mesma tecnologia a outros interessados. O leilão deve se encerrar entre o fim de novembro e o início de dezembro.
O interesse da Disney está diretamente ligado a um processo que a própria empresa moveu contra a Character.AI, alegando que os chatbots davam "uma reviravolta sádica e pervertida" a personagens da Disney, usados por jovens em conversas inapropriadas sobre sexo e automutilação. A Character.AI já concordou em resolver cinco processos de famílias que alegam que os chatbots contribuíram para casos de suicídio de adolescentes.