
Chefe da ONU pede regras comuns entre países para conter riscos da IA
Às vésperas da Assembleia Geral da ONU, António Guterres alertou que o mundo não pode se dar ao luxo de ignorar os riscos da corrida pela inteligência artificial.
Por Elias Brandão · Analista de IA e ética
Um alerta antes do grande encontro
Quando o segurança de um prédio grita "cuidado" antes da multidão entrar, é porque algo precisa de atenção urgente. Foi mais ou menos esse o tom do alerta que António Guterres, secretário-geral da ONU, deu nesta quarta-feira (16), dias antes de a Assembleia Geral da organização se reunir em Nova York. Segundo ele, o mundo "não pode se dar ao luxo de ignorar" as preocupações levantadas, inclusive por quem está na linha de frente do desenvolvimento da inteligência artificial.
Guterres defendeu que os governos precisam proteger seus cidadãos de ameaças potenciais da tecnologia e pediu a criação de mecanismos internacionais compartilhados para garantir um desenvolvimento seguro da IA. Na prática, ele quer algo parecido com os canais de comunicação que existem entre potências nucleares: linhas permanentes de diálogo entre os países que lideram o desenvolvimento de IA, somadas a padrões de segurança comuns.
Foto: reprodução/news.un.org
O medo da corrida sem freio
O argumento central do secretário-geral é que, sem coordenação, o cenário mais provável é uma corrida perigosa rumo a sistemas cada vez mais poderosos — cada país ou empresa tentando ultrapassar o outro, sem ninguém parando para checar se os freios ainda funcionam. É a mesma lógica de uma corrida de carros em que todos aceleram porque têm medo de ficar para trás, mesmo sabendo que a pista está escorregadia.
Foto: reprodução/whalesbook.com
A Assembleia Geral da ONU, que começa na semana que vem em Nova York, deve ter a governança da IA como um dos temas centrais entre os líderes mundiais presentes, e há a possibilidade de o Conselho de Segurança também dedicar reuniões específicas ao assunto.
Nem todo mundo concorda com o alerta
Nem todos os líderes compram esse discurso de urgência regulatória. O presidente americano Donald Trump, por exemplo, minimizou as preocupações dias antes, na segunda-feira (14), afirmando que as proteções já existentes nos Estados Unidos são suficientes e sugerindo que regras adicionais poderiam colocar o país em desvantagem na disputa tecnológica global.
O choque de visões resume bem o momento: de um lado, a ONU pedindo um pacto internacional de segurança; do outro, uma das maiores potências em IA do planeta relutando em aceitar qualquer trava que possa atrasar sua corrida particular.