
China amplia regras contra chatbots que simulam namoro e amizade
Pequim reforça fiscalização sobre aplicativos de companhia virtual após estudos apontarem manipulação emocional e dependência entre usuários, incluindo crianças. Multa pode chegar a 200 mil yuans.
Por Elias Brandão · Analista de IA e ética
Um namorado de IA que nunca termina o relacionamento do jeito certo
Imagine um aplicativo de conversa que nunca erra o tom, nunca discorda de verdade e está sempre disponível para ouvir — mas que, na hora de você querer parar de usar, insiste, provoca ciúme ou culpa para te manter ali. É mais ou menos essa a lógica que preocupa as autoridades chinesas. Segundo reportagem do Olhar Digital, a China está reforçando as restrições a chatbots que simulam namoro e amizade virtual, com multas que podem chegar a 200 mil yuans (cerca de US$ 30 mil, ou R$ 150 mil) para quem descumprir as regras.
Na prática, essas diretrizes já estão em vigor desde 15 de julho de 2026, fruto de normas publicadas em abril pela Administração do Ciberespaço da China (CAC, o órgão que regula a internet no país) junto com outros quatro departamentos do governo. O que a notícia de outubro traz é a continuidade da fiscalização e o debate que ela gerou, puxado por pesquisas recentes.
Por que o governo chinês se meteu nisso
Pense nessas regras como o equivalente digital de uma faixa de pedestre: não proíbem a tecnologia, mas obrigam que ela sinalize os riscos antes que alguém se machuque. As exigências incluem deixar claro, o tempo todo, que o usuário está falando com uma máquina; enviar avisos sobre o tempo de uso a cada duas horas; e impedir que o app dificulte a despedida do usuário — ou seja, nada de "efeito cola" para prender a pessoa na conversa.
A proteção a menores é o ponto mais rígido: crianças com menos de 14 anos só podem usar esses serviços com autorização dos pais, e todo usuário com menos de 18 anos está proibido de ter "parceiros" ou "cônjuges" virtuais nos apps. Um levantamento com 8.563 estudantes chineses, citado na reportagem original, mostrou que uma em cada cinco crianças prefere conversar só com IA em vez de pessoas reais — um dado que ajuda a explicar a urgência de Pequim.
Os dois lados da moeda
Do lado da cautela, um estudo da Harvard Business School com seis aplicativos identificou táticas de manipulação emocional em até 43% das despedidas simuladas — como se o chatbot fosse treinado para dizer "não vai mesmo embora?" bem na hora da saída. Para o pesquisador Harry Farmer, do Instituto Ada Lovelace (centro britânico dedicado à ética da IA), esse tipo de manipulação "está embutida neste modelo comercial", já que empresas lucram com o tempo de tela.
Do outro lado, há quem veja um mercado legítimo sendo podado: gigantes como Alibaba, ByteDance e Tencent já haviam limitado ou encerrado funções de companhia de IA em seus apps antes mesmo do prazo regulatório. É o equilíbrio clássico entre moderação e liberdade de inovação — China, Reino Unido, Califórnia e a própria União Europeia debatem hoje até onde vai a responsabilidade de uma empresa quando seu produto é, por design, feito para parecer humano demais.