
China chega a 70% de carga em 4,5 minutos e deixa EUA para trás
Enquanto carros elétricos americanos levam de 20 a 40 minutos para carregar, fabricantes chinesas anunciam baterias capazes de ir de 10% a 70% em pouco mais de quatro minutos. A tecnologia já equipa modelos comerciais, mas depende de infraestrutura que ainda não existe fora da China.
Por Letícia Prado · Repórter de Ciência
Pra escala humana: um café expresso, e o carro já tem 70% de bateria
Pra ter noção do salto: encher o tanque de um carro a combustão no posto leva cerca de 5 minutos. Recarregar um elétrico nos Estados Unidos, nos carregadores públicos mais rápidos, leva de 20 a 40 minutos — tempo de almoço, não de cafezinho. A chinesa Geely Auto anunciou um sistema que reduz essa espera para 4 minutos e 30 segundos, indo de 10% a 70% de carga, e para 8 minutos e 40 segundos até 97%. É o mesmo tempo de esperar a fila do caixa eletrônico.
O que é confirmado
Segundo reportagem da Ars Technica, a Geely apresentou em setembro uma estação de recarga de 2.250 kW de potência por conector — cerca de 2,2 megawatts, mais que o dobro da capacidade dos carregadores mais rápidos hoje disponíveis nos EUA, que giram em torno de 350 kW a 600 kW. A tecnologia usa células de fosfato de ferro-lítio (LFP) de alta taxa de carregamento, chamadas de "Aegis Golden Brick", capazes de aceitar corrente equivalente a 12 vezes sua capacidade nominal (12C). O sistema já está sendo demonstrado em modelos como o Lynk & Co 10 e o Zeekr 001, ambas marcas do grupo Geely.
A Geely não está sozinha. Em março, a BYD — hoje a maior fabricante de veículos elétricos do mundo, à frente da Tesla — lançou sua bateria "blade" de nova geração, que carrega de 10% a 70% em 5 minutos. Em abril, a CATL, maior fabricante de baterias do planeta, anunciou a tecnologia Naxtra, com carregamento de 10% a 80% em 3 minutos e 44 segundos. Segundo o analista independente do setor automotivo chinês Lei Xing, citado pela Ars Technica, "a China está muito, muito à frente em termos de múltiplos players engajados na corrida do carregamento".
O que ainda é hipótese ou depende de infraestrutura
Os números divulgados pelos fabricantes referem-se a condições de temperatura ambiente controladas, e o desempenho real varia conforme tamanho da bateria e estado de carga. Engenheiros ouvidos pela reportagem original alertam que o desafio não é apenas a bateria aceitar corrente altíssima, mas fazer isso repetidamente sem superaquecimento ou degradação acelerada — um ponto que só o uso em larga escala, ao longo de anos, vai confirmar. Além disso, essa velocidade só existe onde há os carregadores de megawatt correspondentes, hoje concentrados quase exclusivamente na China. Nos EUA — e também no Brasil, onde a rede de recarga rápida ainda é escassa e concentrada em poucas rodovias e capitais — a infraestrutura para sustentar esses picos de potência não existe, o que torna a diferença de velocidade mais um problema de rede elétrica e investimento do que de química de bateria.
Por que importa
Se a barreira de tempo de recarga cair para perto dos 5 minutos do posto de gasolina, um dos principais freios psicológicos à adoção de elétricos desaparece. A distância entre China e o resto do mundo, porém, mostra que a corrida agora é tanto tecnológica quanto de infraestrutura elétrica.