
China está construindo 'nova Hollywood' para fazer filmes inteiramente com IA
A China está transformando a inteligência artificial generativa em uma nova frente da indústria audiovisual, com dinheiro público, infraestrutura de computação e incentivos para empresas.
Por Marina Sato · Repórter de IA
O número que resume a mudança
Produzir um minuto de vídeo com inteligência artificial na China custava cerca de 5.000 iuanes (por volta de US$ 747) no início de 2025. Seis meses depois, o mesmo minuto saía por "algumas centenas de iuanes". É essa queda de custo que está puxando um movimento que a imprensa chinesa já chama de nova Hollywood — só que sem estúdios físicos, câmeras ou atores no sentido tradicional.
Dinheiro público atrás da aposta
Foto: reprodução/caixinglobal.com
Pequim mantém um fundo de tecnologia audiovisual de 260 milhões de iuanes voltado a esse tipo de produção. Xangai oferece acesso a infraestrutura de computação em nuvem e a modelos de IA hospedados publicamente. Shenzhen bancou subsídios de aluguel e suporte técnico em efeitos visuais para estúdios que adotam a tecnologia. O padrão se repete: governos locais competem para atrair empresas de vídeo por IA com incentivo fiscal e computação mais barata.
As ferramentas por trás da produção
Duas plataformas concentram a corrida. A Seedance 2.0, da ByteDance — dona do TikTok e do Douyin —, funciona como uma espécie de diretor virtual, responsável pela direção visual das cenas. Já a Kling, da Kuaishou, plataforma chinesa de vídeos curtos concorrente do Douyin, atua mais como um diretor de fotografia rigoroso, cuidando da consistência técnica das imagens. A iQIYI, serviço de streaming chinês comparável a uma Netflix local, oferece subsídios diretos a criadores que produzem com essas ferramentas.
O volume já é grande: 221 mil novas séries feitas com IA foram lançadas no Douyin apenas no primeiro semestre de 2026. Mas o filtro do público é rígido — só 1.055 delas passaram de 100 milhões de visualizações, uma fração pequena do total.
O primeiro teste de bilheteria
O caso mais simbólico é o de "Sanxingdui: Future Memories", longa de ficção científica com 90 minutos que recebeu da Administração Nacional de Cinema da China a licença para exibição pública — um marco por ser, segundo a cobertura do setor, o primeiro longa gerado por IA a estrear em cinemas no país. Ele foi classificado oficialmente como animação, porque os reguladores chineses ainda não criaram uma categoria própria de censura para conteúdo gerado por IA.
O que ainda falta responder
Resta saber se o público vai pagar ingresso de cinema para assistir a um filme feito por IA, e se o volume de produção vai se traduzir em qualidade reconhecida fora da China. Também não está claro como Hollywood vai reagir no plano jurídico: sindicatos e estúdios americanos já reclamaram de uso não autorizado de vozes e imagens em ferramentas chinesas como a Seedance.