
Cidades americanas cancelam câmeras da Flock, mas vigilância não some
Dezenas de municípios dos EUA estão encerrando contratos com a Flock Safety após casos de abuso policial — só que trocar de fornecedor não significa menos câmeras nas ruas.
Por Camila Furtado · Repórter de Smart Cities
Cancelar o contrato não é o mesmo que tirar a câmera do poste
Da Flórida ao estado de Washington, prefeituras americanas estão dando um basta nos contratos com a Flock Safety, empresa americana de câmeras com inteligência artificial para leitura automática de placas de veículos, usada por departamentos de polícia para rastrear carros pelas ruas. Segundo o The Verge, mais de 50 cidades e condados já desativaram ou cancelaram contratos com a empresa só em 2026, num tally feito pelo grupo de ativismo DeFlock. O Institute for Justice vai além: mais de 100 jurisdições já romperam com a Flock ou com outros fornecedores do mesmo tipo de câmera. E a primeira coisa que eu, como cidadã, quero saber é: esse contrato custou quanto ao município — e quem aprovou sem perguntar antes pra população?
Os casos que acenderam o alarme
A pressão cresceu depois de episódios de abuso que vazaram este ano. Na Flórida, um ex-policial de Orange City, Jarmarus Brown, foi flagrado usando o sistema mais de 100 vezes para rastrear a ex-namorada. Em Washington, um tatuador chamado Jose Rodriguez entrou com um pedido simples de acesso a registros públicos e acabou expondo o tamanho da rede de vigilância — a Justiça decidiu que as imagens são, sim, registro público, e classificou o alcance da Flock como “amplo e indiscriminado” demais, capturando principalmente gente inocente. O resultado prático: as cidades de Sedro Woolley e Stanwood desligaram as câmeras.
O detalhe que ninguém está contando direito
Aqui está o ponto que eu acho mais importante: segundo a reportagem, várias cidades que romperam com a Flock simplesmente migraram para concorrentes como a Axon — trocando de fornecedor, mas não de vigilância. Ou seja, o morador pode achar que ganhou privacidade de volta, quando na prática só mudou a logomarca da câmera no poste.
E no Brasil?
Câmeras com inteligência artificial e reconhecimento facial já circulam em debates de cidades brasileiras também, com discussões recorrentes sobre custo do contrato, transparência na licitação e quem tem acesso aos dados captados. O caso americano é um alerta e tanto: cancelar contrato, por si só, não garante fiscalização — é preciso perguntar sempre o que vem depois. Fica a provocação para prefeituras por aqui: antes de assinar (ou trocar) um contrato de vigilância, quem no gabinete está de fato lendo a letra miúda?