tech & talk
Smart Cities29 de out. de 2026, 15:41

Cidades do Vision Zero não têm dados pra evitar acidentes, mostra estudo

Relatório da consultoria britânica Silicon Highway Solutions mostra que cidades com programas Vision Zero têm dados de acidentes, mas quase nenhuma informação sobre quase-acidentes e comportamento de motoristas antes da colisão.

Por Camila Furtado · Repórter de Smart Cities

Compartilhar

O relatório que incomoda as prefeituras

Um levantamento batizado de "Emerging Themes for Vision Zero Cities", assinado pela Silicon Highway Solutions, consultoria britânica especializada em segurança viária para o setor público, cruzou 15 relatos de líderes de transporte que participaram do Transport Innovation Alliance Forum, encontro do setor realizado em Londres entre 30 de setembro e 1º de outubro. A conclusão: cidades que adotaram a meta Vision Zero — zerar mortes no trânsito — continuam reagindo a acidentes já registrados, porque não têm dados sobre o que acontece antes da colisão.

O dado que falta não é sobre o acidente, é sobre o quase-acidente

Das 15 cidades ouvidas, 11 têm histórico organizado de colisões — mas apenas 1 tem dados contínuos de sensores capazes de captar quase-acidentes, comportamento de quem dirige e conflitos de trânsito no dia a dia. Faltam informações sobre a perspectiva de quem dirige, os motivos para avançar o sinal vermelho e a frequência real de quase-batidas, segundo o relatório.

Onde o risco se concentra

Sete das 15 submissões apontaram cruzamentos e junções como a principal preocupação, com pedestres em risco nos sete casos e ciclistas em cinco. Oito relatos descreveram problemas concentrados em horários de pico. Há também uma divisão de prioridade: 11 cidades investem mais em "ruas seguras" (mudanças de infraestrutura), enquanto só 4 priorizam "veículos seguros".

A frase que resume o problema

Nadeem Ullah, diretor de gestão de programas da Silicon Highway Solutions, resume o ponto central: "dado de colisão é, por definição, um registro de um dano que já aconteceu. Para passar de reagir a prevenir, as cidades precisam medir o conflito, não só o acidente" (tradução livre).

O que isso significa pra quem anda na rua

O relatório não cita nominalmente nenhuma cidade nem recomenda qual sensor comprar — é um raio-x de lacunas, não uma lista de soluções prontas. Mas acende um alerta válido também para o Brasil, onde programas municipais de Vision Zero enfrentam o mesmo dilema: sem dado de quase-acidente, cruzamento e semáforo, a prefeitura só descobre o ponto perigoso depois que alguém já morreu ali. Fica a pergunta que o estudo não responde: quanto custa instalar sensoriamento contínuo numa cidade grande, e quem paga a conta — prefeitura, estado ou concessionária de trânsito?

vision zeromobilidade urbanatransitoseguranca viariadados abertos
Compartilhar