
Cientistas acham micro-organismo que fala dois códigos genéticos ao mesmo tempo
Um protista nunca antes catalogado reatribuiu dois de seus três códons de parada para produzir aminoácidos diferentes — algo que a biologia considerava praticamente impossível.
Por Letícia Prado · Repórter de Ciência
Pra escala humana
Imagine um alfabeto usado por praticamente toda forma de vida na Terra — de bactérias a baleias — para traduzir DNA em proteína. Esse alfabeto tem só 64 "palavras" (os códons, trincas de letras genéticas) e, entre elas, três funcionam como ponto final de frase: TAA, TAG e TGA, os chamados códons de parada. Pesquisadores do Earlham Institute, no Reino Unido, encontraram um organismo unicelular que decidiu reescrever essa regra.
O que é confirmado
A espécie, batizada provisoriamente de Oligohymenophorea sp. PL0344, é um protista ciliado coletado em uma lagoa da Universidade de Oxford e identificado durante testes de um novo método de sequenciamento de DNA de célula única — os cientistas nem estavam procurando por isso. O estudo, publicado na revista científica PLOS Genetics, descreve que o organismo reatribuiu dois dos três códons de parada: TAA passou a codificar o aminoácido lisina, e TAG passou a codificar ácido glutâmico. Só o TGA continua funcionando como sinal de parada da leitura genética.
Segundo o pesquisador Jamie McGowan, um dos autores, isso rompe um padrão observado em praticamente todos os outros casos conhecidos de reatribuição de códon: TAA e TAG normalmente mudam juntos, como um par que anda de mãos dadas evolutivamente. Encontrar os dois se comportando de forma independente — cada um assumindo um aminoácido diferente — é, segundo a equipe, um caso sem precedente documentado.
Em paralelo, outro grupo, ligado à Universidade da Califórnia em Berkeley, identificou um micro-organismo do domínio Archaea produtor de metano que trata um mesmo códon de parada de duas formas diferentes dentro da própria célula.
O que é hipótese
O papel funcional exato dessas reatribuições ainda não está fechado. Uma hipótese levantada pelos autores é que manter só um códon de parada (o TGA) logo depois de genes ajudaria a minimizar erros de leitura genética que ultrapassem o ponto final pretendido — mas isso é interpretação, não fato estabelecido pelo estudo. Também não há, por enquanto, aplicação prática demonstrada.
Por que isso importa
A área de biologia sintética já trabalha há anos tentando expandir artificialmente o código genético de organismos de laboratório, para incorporar aminoácidos que não existem naturalmente. Descobrir que a natureza já faz algo parecido, por conta própria, em um protista de lagoa britânica, é a prova de conceito biológica de que dois códigos genéticos podem, sim, coexistir numa única célula viva.