
Cientistas decifram por que gatos laranjas quase sempre são machos
Dois estudos independentes, de Stanford e da Universidade de Kyushu, identificaram a mutação genética exata por trás da pelagem laranja em gatos e publicaram os resultados na Current Biology.
Por Letícia Prado · Repórter de Ciência
Pra escala humana: um a cada milhares de letras do DNA
Basta um trecho de 5,1 mil pares de bases faltando — uma fração minúscula do genoma de um gato — para decidir se o pelo vai sair laranja. Dois grupos de pesquisa, um liderado por Christopher Bryan Kaelin na Universidade Stanford e outro por Hiro Sasaki na Universidade de Kyushu, no Japão, chegaram à mesma resposta de forma independente e publicaram os resultados na revista científica Current Biology nesta semana.
O que está confirmado
A deleção acontece dentro do gene ARHGAP36, localizado no cromossomo X, numa região que não fabrica proteína — um "íntron". Em vez de desligar o gene, a falta desse trecho aumenta a atividade dele nas células de pigmentação da pele, os melanócitos. Isso suprime a produção de eumelanina, o pigmento escuro, e favorece a feomelanina, responsável pelo tom avermelhado.
Por que quase todo gato laranja é macho
A explicação é de manual de genética básica: machos têm um cromossomo X e um Y, então basta a mutação estar nesse X único para o pelo sair laranja por completo. Fêmeas têm dois X, e cada célula do corpo desativa aleatoriamente um deles — por isso a maioria das fêmeas com a mutação em apenas uma cópia vira tartaruga ou tricolor, misturando laranja com outras cores, e só uma fração menor, com a mutação nas duas cópias, nasce inteiramente laranja.
Foto: reprodução/livescience.com
O que ainda é hipótese
Os próprios autores tratam como pergunta aberta, não resposta fechada, por que justamente essa região do DNA passou a controlar pigmentação num gene que, em outros tecidos do corpo, atua no sistema nervoso e hormonal — não na pele. Entender esse mecanismo é o próximo passo apontado pelos dois laboratórios.