Cientistas identificam neurônios raros que ligam o sono no cérebro
Pesquisadores do Mount Sinai descreveram um tipo raríssimo de célula cerebral que, ao ser ativado, sincroniza o córtex e induz o sono profundo em camundongos.
Por Letícia Prado · Repórter de Ciência
Pra escala humana: 1 em cada 500 neurônios
Elas representam apenas 0,2% dos neurônios do córtex cerebral — ou seja, cerca de 1 em cada 500 células dessa região —, mas parecem ter um papel desproporcional em ligar o sono. É o que descreve um estudo publicado em 9 de setembro na revista científica Nature, liderado por Renata Batista-Brito, professora da Icahn School of Medicine at Mount Sinai, em Nova York, que iniciou a pesquisa quando ainda estava no Albert Einstein College of Medicine.
O que está confirmado
Os neurônios em questão, batizados de Sst-Chodl, pertencem a uma classe rara de células inibitórias. A maioria dos neurônios inibitórios do córtex age apenas localmente, freando a atividade das células vizinhas. Os Sst-Chodl são diferentes: enviam sinais a longa distância, capazes de influenciar áreas inteiras do córtex de uma só vez.
Em testes com camundongos, os pesquisadores confirmaram que essas células ficam inativas durante a vigília e começam a disparar conforme o animal fica sonolento, até o sono profundo (NREM). Quando estimuladas artificialmente em laboratório, elas sincronizaram a atividade elétrica do córtex em padrões lentos característicos do sono — e isso foi suficiente para fazer os camundongos adormecerem mais rápido e dormirem por mais tempo.
O que ainda é hipótese
Fica em aberto se o mesmo mecanismo funciona de forma idêntica em humanos — o estudo, até aqui, é só em camundongos. Também não está claro se manipular essas células poderia virar, no futuro, uma via terapêutica para distúrbios do sono, ou se intervir nesse circuito traria efeitos colaterais em outras funções do córtex, já que essas células têm alcance amplo pelo cérebro.
O achado central, segundo a própria pesquisadora, é conceitual: “o córtex contém circuitos que podem ativamente conduzir e sincronizar a atividade associada ao sono e, quando ativados, podem de fato promover o sono” — ou seja, o cérebro não apenas “desliga” passivamente por comando de outras regiões, ele tem mecanismo próprio para isso. As células são evolutivamente conservadas há centenas de milhões de anos, presentes desde anfíbios e répteis até humanos, o que sugere que esse circuito é uma solução biológica antiga para um problema universal: como induzir o sono de forma confiável.