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Ciência08 de set. de 2026, 10:27

Cientistas identificam seis estruturas gigantes na fronteira núcleo-manto da Terra

Um estudo publicado na revista JGR Solid Earth usou aprendizado de máquina para analisar milhões de terremotos e revelou seis faixas contínuas de material anômalo a 2.900 km de profundidade.

Por Letícia Prado · Repórter de Ciência

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Pra escala humana: estamos falando de estruturas tão profundas que nenhum equipamento humano jamais chegou perto delas — a perfuração mais funda da história, a Kola Superdeep, na Rússia, parou a pouco mais de 12 km. As novas seis estruturas identificadas pela ciência ficam a 2.900 km de profundidade, exatamente na fronteira onde o núcleo da Terra encontra o manto.

O que foi confirmado

Um grupo de pesquisadores na China usou aprendizado de máquina para vasculhar mais de 2 milhões de registros de terremotos coletados ao longo de 35 anos. Com isso, encontraram cerca de 175 mil sinais chamados de precursores PKP — um tipo de onda sísmica que se comporta de forma diferente ao atravessar zonas com materiais distintos. É praticamente dez vezes mais desses sinais do que a soma de todos os estudos anteriores sobre o tema.

Com esse volume de dados, ficou claro que as irregularidades na fronteira núcleo-manto, antes vistas como manchas isoladas, na verdade formam seis faixas contínuas e extensas. O estudo foi publicado na revista científica JGR Solid Earth, ligada à American Geophysical Union.

O que ainda é hipótese

Aqui é importante separar o que os dados mostram do que os cientistas estão especulando. O confirmado é a existência e a extensão dessas seis faixas, chamadas pelos autores de "pilhas termoquímicas" (thermochemical piles, no original) — regiões com composição diferente do restante do manto.

Já a origem delas segue em aberto. Uma das hipóteses discutidas no estudo é que esse material tenha sido empurrado para o interior da Terra ao longo de bilhões de anos, podendo incluir fragmentos de crosta continental antiga ou até resquícios de Theia, o hipotético protoplaneta do tamanho de Marte que teria colidido com a Terra há 4,5 bilhões de anos e originado a Lua. É uma ideia consistente com os dados, mas não uma conclusão fechada — os próprios autores tratam como cenário a ser testado por outros estudos.

Por que isso importa

Entender essas estruturas ajuda a explicar como o calor se movimenta de dentro para fora do planeta, processo que alimenta o campo magnético terrestre e influencia até a atividade vulcânica na superfície. Quanto mais preciso o mapa da fronteira núcleo-manto, melhor os modelos conseguem simular a dinâmica interna da Terra — algo que, até poucos anos atrás, dependia de uma quantidade de dados sísmicos muito menor do que a usada nesta pesquisa.

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