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Ciência19 de set. de 2026, 11:02

Cientistas queimam seus próprios pergaminhos para decifrar os de Herculano

Um scanner portátil de raios-X detecta chumbo na tinta de manuscritos carbonizados pelo Vesúvio, ajudando a apontar quais rolos valem a pena escanear em 3D. O método já foi testado com réplicas queimadas em laboratório.

Por Letícia Prado · Repórter de Ciência

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Pra escala humana

Imagine folhear um livro sem nunca abri-lo — e ainda assim conseguir ler cada palavra. É mais ou menos o que um grupo de pesquisadores dos Estados Unidos e do Reino Unido está tentando fazer com os pergaminhos de Herculano, cidade romana soterrada junto com Pompeia pela erupção do Vesúvio em 79 d.C. Os cerca de 1.800 rolos e fragmentos de papiro encontrados na Villa dos Papiros estão carbonizados e tão frágeis que desenrolá-los fisicamente costuma destruí-los.

O que foi confirmado

Foto: reprodução/phys.org

Um estudo publicado em 16 de setembro na revista científica PLOS ONE, liderado por Douglas Seiler — inventor aposentado ligado ao Berkeley SETI, projeto de busca por vida extraterrestre da Universidade da Califórnia em Berkeley —, mostrou que um scanner portátil de fluorescência de raios-X (XRF), equipamento não destrutivo e relativamente barato, consegue detectar a presença de chumbo e cobre na tinta de pergaminhos carbonizados. Isso foi confirmado tanto em réplicas queimadas pelos próprios pesquisadores em forno de alta temperatura quanto em fragmentos reais da coleção de papiros de Tebtunis, também sob custódia de Berkeley.

O time, que incluiu cientistas do National Institute of Standards and Technology (NIST) dos EUA e da University College London, no Reino Unido, também confirmou algo crucial: o chumbo absorve raios-X de forma muito mais intensa que o papiro queimado ao redor — até 25 vezes mais, segundo o físico Jacob LaManna, do NIST. Isso faz as letras "brilharem" em tomografias computadorizadas de raios-X (X-ray CT), a técnica usada para reconstruir o texto sem tocar no rolo.

O que ainda é hipótese

Nem todo pergaminho tem tinta com metal — em geral, apenas os escritos após o século I d.C. usavam esse tipo de composição, segundo a papiróloga Leah Packard-Grams, também de Berkeley. Por isso, o scanner XRF funciona como uma etapa de triagem: ele não lê o texto, apenas aponta quais rolos são bons candidatos para a tomografia mais cara e demorada. A equipe ainda precisa testar o método em mais fragmentos originais de Herculano e refinar os algoritmos de "desenrolamento virtual" — adaptados de softwares usados para inspecionar baterias de íon-lítio — para que consigam reconstruir textos completos de forma confiável.

A aposta é alta: iniciativas como o Vesuvius Challenge, competição que já pagou US$ 700 mil em prêmios por decifrar trechos desses papiros com ajuda de inteligência artificial, mostram o interesse crescente em recuperar uma biblioteca inteira da Roma Antiga, ainda enterrada em grande parte.

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