
Cientistas recriam receita de 1.600 anos do vidro que muda de cor romano
Pesquisadores da Universidade de Sheffield reproduziram pela primeira vez o efeito óptico do Lycurgus Cup, taça romana que muda de verde-jade para vermelho-rubi conforme a luz.
Por Letícia Prado · Repórter de Ciência
Pra escala humana
Imagine um copo que muda de cor sozinho: verde-jade quando a luz vem de frente, vermelho-rubi quando a luz vem de trás, como se tivesse uma lâmpada escondida dentro do vidro. Esse objeto existe desde o século 4 e está exposto no Museu Britânico — e só agora cientistas conseguiram recriar, do zero, a receita que os romanos usaram para fazê-lo.
O que foi confirmado
Uma equipe da Universidade de Sheffield, no Reino Unido, liderada pela especialista técnica em vidro e cerâmica Lisa Hollands, desenvolveu e testou a primeira receita moderna repetível capaz de reproduzir o efeito óptico do Lycurgus Cup, a taça romana de vidro dicroico (que muda de cor conforme o ângulo e a direção da luz) datada de cerca de 1.600 anos.
Estudos científicos anteriores já tinham identificado que o segredo do efeito está em nanopartículas de ouro e prata — numa proporção aproximada de 3 partes de ouro para 7 de prata — incrustadas no vidro, cada uma cerca de mil vezes menor que um grão de areia. Essas partículas interagem de formas diferentes com a luz refletida e com a luz que atravessa o vidro, criando a mudança de cor.
O que faltava era reproduzir isso na prática. Hollands testou diferentes quantidades de ouro e prata, materiais de partida, tipos de forno e níveis de oxigênio até chegar a um processo funcional. Em declaração à Gizmodo, ela descreveu o desafio: sabia que não seria simples "embutir nanopartículas prontas no vidro", porque o processo romano original era mais complexo do que parece.
Com a receita em mãos, o vidreiro britânico Elliot Walker — vencedor da segunda temporada do programa Blown Away, da Netflix — foi contratado para criar uma escultura contemporânea usando a fórmula recriada por Hollands.
O que é hipótese
Os cientistas ainda não sabem exatamente como os artesãos romanos do século 4 chegaram a essa técnica originalmente, já que não há registros escritos do processo — a reconstrução de Sheffield parte de análises químicas de fragmentos originais e de tentativa e erro, não da descoberta de um manual romano. Também é especulativo o alcance de aplicações futuras citadas pela equipe, como sensores ópticos e tecnologias anti-falsificação baseadas no mesmo princípio de nanopartículas, que ainda não passaram de possibilidade teórica.
Onde ver
A peça produzida com a receita recriada será exibida na Millennium Gallery de Sheffield, durante o Festival of the Mind, entre 6 e 15 de novembro de 2026, antes de ganhar exposição permanente no Turner Museum of Glass da universidade.