
Cinturão de Van Allen é mesmo uma barreira para viagens espaciais?
Colunista Marcelo Zurita explica como astronautas atravessam as duas faixas de radiação que cercam a Terra desde a era Apollo, e o que é medição confirmada e o que ainda gera debate.
Por Letícia Prado · Repórter de Ciência
Pra escala humana
Imagine duas rosquinhas invisíveis, feitas de partículas carregadas de altíssima energia, envolvendo a Terra a partir de cerca de 1.000 km de altitude e se estendendo até por volta de 60.000 km. É mais ou menos a distância de dar quase duas voltas ao redor do planeta pelo equador, só que na vertical, para cima. Essa é a escala do Cinturão de Van Allen, tema da coluna Olhar Espacial desta sexta-feira (25), assinada pelo astrônomo amador Marcelo Zurita, presidente da Associação Paraibana de Astronomia e coordenador do Dia do Asteroide no Brasil.
O que é confirmado
Descoberto em 1958, o Cinturão de Van Allen é dividido em duas regiões principais: uma interna, resultante da interação de raios cósmicos com a atmosfera terrestre, e uma externa, formada por bilhões de partículas de alta energia vindas do vento solar. Juntas, elas fazem parte da magnetosfera, o escudo magnético que protege a superfície do planeta dos efeitos mais nocivos da radiação espacial.
Os cálculos originais de James Van Allen já indicavam que existem corredores de menor radiação dentro dos cinturões, por onde é possível passar com exposição reduzida. Foi essa rota que as missões Apollo usaram: os astronautas cruzaram as duas faixas rapidamente, e não permaneceram nelas. Em 1968, a Apollo 8 foi a primeira nave tripulada da história a voar além dos cinturões, rumo à Lua. Os dosímetros a bordo das missões Apollo registraram uma dose média de radiação na pele de 0,38 rad — nível comparável ao de exames médicos de rotina, como uma tomografia.
O que é hipótese ou ainda gera debate
A pergunta que dá título à coluna de Zurita — se o cinturão representa uma barreira real às viagens espaciais — não tem resposta unânime e fechada. Cientificamente, o consenso é que a estrutura não é intransponível: com trajetória calculada, velocidade de travessia e blindagem adequada (geralmente alumínio e materiais plásticos específicos), naves e astronautas conseguem atravessá-la com risco controlado. O que permanece como ponto de atenção — e não como fato estabelecido para qualquer missão futura — é o efeito de exposições mais longas ou repetidas à radiação sobre a saúde humana, incluindo possíveis danos neurológicos e aumento do risco de câncer, especialmente relevante para projetos de viagens tripuladas de longa duração, como missões a Marte.
Por que isso importa agora
Com o interesse crescente em missões tripuladas além da órbita baixa, entender os limites reais (e não os mitos) do Cinturão de Van Allen segue sendo parte central do planejamento de qualquer viagem espacial tripulada.