
Claude, IA da Anthropic, descobre sistema de enzimas parecido com o Crispr
A Anthropic afirma que sua IA Claude identificou sozinha um novo sistema de enzimas com padrão semelhante ao Crispr, em teste inicial do laboratório físico que a empresa acabou de montar na Califórnia. A descoberta ainda não passou por revisão por pares.
Por Elias Brandão · Analista de IA e ética
Um professor de biologia que nunca dorme
Imagine um estagiário que lê o equivalente a milhares de livros de bioquímica por dia, sem cansar, e ainda assim erra bastante — mas de vez em quando encontra algo que ninguém tinha visto. É mais ou menos essa a imagem que a Anthropic, empresa de IA por trás do assistente Claude e rival da OpenAI, está vendendo com o anúncio de que o Claude "descobriu de forma autônoma" um novo sistema de enzimas com semelhanças estruturais ao Crispr — a ferramenta de edição genética que permite cortar e reescrever trechos de DNA com precisão, e que rendeu Prêmio Nobel a suas criadoras em 2020.
O que o Claude encontrou, em bom português
Foto: reprodução/engadget.com
Segundo a Anthropic, o sistema batizado de ART (sigla em inglês para transcriptases reversas associadas a arrays) foi localizado em bacteriófagos — vírus que infectam bactérias. Ele é formado por uma enzima que copia RNA em DNA, um gene parceiro de função ainda desconhecida e uma sequência de repetições de DNA cujo layout lembra o "banco de dados" programável que torna o Crispr tão versátil. Ou seja: não é o Crispr em si, mas uma peça de maquinaria genética com arquitetura parecida, que pode (ou não) virar uma ferramenta biotecnológica no futuro.
O processo, segundo a empresa, envolveu cerca de 950 agentes de IA rodando o Claude, que varreram bancos de dados de sequências de DNA por 21 horas e consumiram 210 milhões de tokens até um deles notar o padrão repetitivo incomum. A Anthropic diz que a participação humana ficou restrita a escrever o comando inicial e a executar fisicamente os experimentos de bancada — já que ideia gerada por IA ainda precisa ser testada em tubo de ensaio para valer.
Avanço real, mas com selo de "ainda em obras"
Esse é o primeiro resultado divulgado do novo laboratório úmido (wet lab) que a Anthropic confirmou ter montado na região da Baía de São Francisco, espaço criado justamente para checar na prática o que o Claude sugere na teoria. É importante frisar: o trabalho foi publicado como pré-print, ou seja, ainda não passou pelo crivo tradicional de revisão por pares da comunidade científica. A própria Anthropic reconhece que a função biológica exata do sistema ART "ainda está sendo estudada".
Do lado do entusiasmo, Feng Zhang, um dos pioneiros da edição genômica com Crispr e professor do MIT e do Broad Institute, avaliou o pré-print e chamou o resultado de "um exemplo empolgante de como agentes de IA podem contribuir para a descoberta biológica" — mas isso não substitui a validação independente que qualquer achado científico precisa passar antes de virar consenso. Vale lembrar também que o anúncio chega num momento em que a Anthropic expande sua aposta em ciências da vida e se prepara para se tornar uma companhia de capital aberto, o que reforça o interesse comercial em mostrar utilidade prática para o Claude além do chat do dia a dia.
Atualização (23/09, 21:46): Novos detalhes divulgados pela Anthropic reforçam que a descoberta do sistema de enzimas parecido com o Crispr — batizado de ART (array-associated reverse transcriptases) — foi conduzida principalmente pelo Claude, mas sob supervisão humana constante. Segundo o CEO Dario Amodei, a IA processou 210 milhões de tokens com cerca de 950 agentes em apenas 21 horas, vasculhando mais de 200 mil transcriptases reversas até chegar a 20 candidatos analisados em detalhe.
Apesar do avanço, a Anthropic destacou um ponto central: todo o trabalho físico de laboratório continua sendo feito por cientistas humanos. O laboratório, criado na primavera de 2026 na Bay Area e restrito aos níveis de biossegurança BSL-1 e BSL-2, não deixou o Claude operar sozinho nem manipular equipamentos. Amodei reconheceu que, no futuro, pode ser tecnicamente possível a IA conduzir experimentos de forma autônoma, mas afirmou que isso não é feito atualmente.
A função biológica exata do sistema ART e suas possíveis aplicações em biotecnologia ainda estão sendo investigadas pela equipe.