
Colapso de correntes do Atlântico some dos planos climáticos; Brasil é exceção
Levantamento mostra que apenas 2 de 91 planos climáticos nacionais citam o risco de colapso da AMOC, o sistema de correntes que regula o clima do Atlântico — e nenhum apresenta ação concreta. O Brasil é um dos dois países, preocupado com efeitos sobre a Amazônia.
Por Letícia Prado · Repórter de Ciência
Pra escala humana: imagine uma esteira rolante gigantesca, só que feita de água, que pega calor do Caribe e entrega lá no Ártico — e depois manda o frio de volta pro fundo do oceano. É basicamente isso que a Circulação Meridional de Revolvimento do Atlântico, a AMOC, faz há milhares de anos. E segundo um estudo novo, quase nenhum governo do planeta está se preparando pro dia em que essa esteira desacelerar de verdade.
O que foi confirmado
O levantamento, publicado na revista científica Nature Sustainability em 29 de outubro, analisou 91 planos nacionais de adaptação climática submetidos à Convenção-Quadro da ONU sobre Mudança do Clima. Resultado: apenas dois desses 91 planos mencionam a possibilidade de colapso da AMOC, e nenhum detalha uma ação concreta para esse cenário.
Foto: reprodução/theconversation.com
Os dois países são o Brasil e a Irlanda. O plano brasileiro alerta que o desligamento da AMOC "poderia deslocar a faixa de chuvas do Atlântico para o sul", o que ajudaria a empurrar a Amazônia para um ponto de colapso — um tipping point que preocupa climatologistas há anos. Já o plano irlandês, de um país que depende da AMOC pra manter seu clima ameno mesmo em latitude alta, reconhece que "a adaptação, por si só, pode não ser suficiente" caso a corrente pare.
O que ainda é hipótese
Um colapso completo da AMOC antes de 2100 é considerado improvável pelos cientistas, mas uma redução de até 50% na intensidade da circulação até o fim do século, num cenário intermediário de emissões, está dentro do que os modelos climáticos preveem. Os impactos nesse cenário já seriam severos: enfraquecimento médio de 29% nas monções da África Ocidental, 19% nas monções de verão da Índia, e temperaturas que poderiam cair a até -20°C em Londres no inverno, pela perda de calor que a corrente hoje transporta pra Europa.
Os autores do estudo, liderados por Brenden Jongman, lembram que a AMOC já esteve perto de uma interrupção quase completa há cerca de 17,5 mil anos, no fim da última era glacial — prova de que o sistema é capaz de mudanças abruptas. A recomendação final é direta: países deveriam simular cenários de colapso antes de aprovar grandes investimentos de infraestrutura e manter o monitoramento oceânico.