
Columbia (EUA) transforma crise da água pós-furacão em projeto de frente de rio
Dez anos após o furacão Joaquin romper o canal que abastece a cidade americana de Columbia, a prefeitura já gastou mais de US$ 150 milhões em reparos e agora usa parte da verba para reconectar moradores aos rios da região.
Por Camila Furtado · Repórter de Smart Cities
Uma ruptura que virou obra de US$ 150 milhões
Em outubro de 2015, o furacão Joaquin despejou chuvas de proporção estatística "de mil anos" sobre Columbia, capital da Carolina do Sul, nos Estados Unidos. A enchente rompeu diques do Columbia Canal, principal fonte de água potável de uma cidade com cerca de 150 mil habitantes. A equipe municipal precisou erguer uma barragem improvisada de rocha e criar um lago artificial só para manter o abastecimento — solução paliativa que, segundo a Smart Cities Dive, site americano especializado em gestão urbana, ainda está em uso uma década depois.
O reparo definitivo do rompimento deve custar cerca de US$ 60 milhões, bancados por uma combinação de verba federal do FEMA (a agência de gestão de emergências dos EUA) e do governo estadual da Carolina do Sul. Outros US$ 12 milhões estão previstos para trocar comportas danificadas, e mais US$ 63,8 milhões vão para uma nova captação de água no rio Congaree, com capacidade de 80 milhões de galões por dia. Somado, o pacote de recuperação hídrica passa de US$ 150 milhões — e levou cerca de cinco anos de negociação só para a liberação dos recursos federais.
Foto: reprodução/wistv.com
Quem fiscaliza a obra
A supervisão financeira é dividida entre a FEMA, que aprova e audita o uso das verbas via dois programas (Assistência Pública e o fundo de resiliência BRIC), e a Divisão de Gestão de Emergências da Carolina do Sul, que cofinancia os reparos. No nível local, é o conselho municipal (City Council) que aprova contratos e repasses extras — caso dos US$ 2 milhões adicionais liberados recentemente para restaurar o canal, depois que a reabertura total da área foi empurrada para 2,5 anos. Não há, nas informações públicas disponíveis, menção a auditorias independentes ou multas aplicadas à prefeitura — o controle é essencialmente interno, entre prefeitura e agências financiadoras.
Da crise à orla pública
Com os reparos avançando, a prefeitura decidiu ir além da reconstrução e criar o Congaree Riverfront District, distrito de cerca de 40 hectares que vai ligar dois parques já existentes e abrir acesso público a um trecho do rio Congaree hoje praticamente isolado dos moradores. A prefeitura contratou a Field Operations, escritório de arquitetura paisagística de Nova York responsável pelo High Line de Manhattan, por US$ 1,7 milhão para desenhar o plano diretor da área. Uma fundação filantrópica local, a Boyd Foundation, doou mais US$ 5 milhões para o parque.
O plano diretor deve ficar pronto até o final de 2026, mas a conclusão das obras do canal só é esperada entre 2028 e 2029. Para quem vive em cidades brasileiras que também lidam com rios represados por décadas de descaso urbano, o caso de Columbia mostra como uma crise de infraestrutura pode — com fiscalização clara sobre origem e destino de cada dólar — se tornar alavanca para recuperar espaço público.