
Com 17 mil satélites em órbita, relatório europeu acende alerta de colisão
O Space Environment Report 2026, da Agência Espacial Europeia (ESA), mostra que o risco de colisão em órbita baixa subiu 20% desde 2024, enquanto satélites deixam de ser retirados de circulação a tempo. Ainda não há data para um cenário de colapso, mas a tendência preocupa os autores do estudo.
Por Letícia Prado · Repórter de Ciência
Pra escala humana
Pra escala humana: hoje existem cerca de 17 mil satélites girando ao redor da Terra — mais do que o dobro do que havia há poucos anos — e esse número só cresce. Só em 2025 foram mais de 300 lançamentos, que colocaram acima de 4 mil novos satélites em órbita, numa média de cerca de dez lançamentos por dia. É esse tráfego que motivou o alerta mais recente da Agência Espacial Europeia (ESA, o braço espacial multinacional da Europa), publicado no Space Environment Report 2026.
O que é confirmado
O relatório traz números concretos, já registrados: mais de 40 mil objetos catalogados em órbita e um risco de colisão em órbita baixa (LEO) que subiu 20% desde 2024. A ESA também mantém um Índice de Saúde do Ambiente Espacial, que saltou de aproximadamente 4 para 50 em apenas um ano — uma piora de uma ordem de magnitude no impacto cumulativo das atividades espaciais. Outro dado confirmado: mais de três satélites ou corpos de foguete intactos reentram na atmosfera todos os dias, mas isso ainda não compensa o ritmo de novos lançamentos.
O problema central apontado pelos autores não é só o volume de satélites ativos, e sim a demora em retirar de órbita os que já cumpriram sua vida útil. Segundo o relatório, essa disposição insuficiente em órbitas congestionadas é o que mais contribui para o aumento do risco de colisão.
O que é projeção, não fato
Aqui entra a parte hipotética: a ESA reduziu o horizonte de suas simulações de 200 para 100 anos e, mesmo assim, projeta uma "deterioração preocupante" ano a ano, com número de objetos e colisões esperadas em alta acentuada. É essa trajetória que alimenta o temor da chamada síndrome de Kessler — um efeito cascata em que colisões geram fragmentos que provocam novas colisões, a ponto de a população de detritos continuar crescendo mesmo que nenhum satélite novo seja lançado. O relatório é claro: isso é um cenário projetado, não uma data marcada para o colapso de alguma região orbital.
A ESA também passou a medir, pela primeira vez, o risco de vítimas em solo por reentradas descontroladas. A tendência é de alta, mas a agência frisa que a probabilidade de um acidente desse tipo ainda é baixa se comparada a riscos do dia a dia.
O que vem a seguir
A resposta da ESA passa pela meta "Zero Debris" até 2030 e por missões como a ClearSpace-1, dedicada à remoção ativa de detritos, além de um projeto de interface padronizada para captura de satélites inativos. Mas o próprio relatório reconhece que os esforços de mitigação precisam ser mais rápidos e consistentes do que têm sido até aqui — a política ainda corre atrás do tráfego orbital.