
Com IA no time, mais da metade dos chefes não sabe mais avaliar quem trabalha bem
Pesquisa da Nielsen encomendada pela monday.com, plataforma de gestão de trabalho, mostra que mais de 50% dos gestores acham mais difícil avaliar funcionários depois que a IA entrou na rotina das equipes.
Por Elias Brandão · Analista de IA e ética
O boletim que ninguém sabe mais corrigir
Pense num professor que de repente descobre que metade da turma usa calculadora escondida na prova. O problema não é a calculadora em si — é que ele perdeu a régua para saber quem realmente aprendeu a conta e quem só copiou o resultado. É mais ou menos essa a sensação relatada por gestores ao redor do mundo, segundo uma nova pesquisa.
Um levantamento da Nielsen, instituto de pesquisa de mercado, encomendado pela monday.com — plataforma de gestão de trabalho e projetos —, ouviu 1.700 diretores e gestores seniores em sete países. O resultado: mais da metade deles diz que ficou mais difícil avaliar o desempenho dos funcionários depois que a IA passou a fazer parte do dia a dia das equipes.
Por que o trabalho polido confunde o chefe
A explicação é simples na teoria e incômoda na prática: boa parte do que chega à caixa de entrada do gestor hoje já vem com o acabamento de uma ferramenta de IA generativa. Um relatório bem escrito, uma apresentação bem estruturada — tudo fica parecido, e fica difícil saber quanto daquilo é mérito do funcionário e quanto é mérito do software. É como julgar uma redação sem saber se foi o aluno ou o corretor ortográfico que ajeitou as frases.
Com isso, 78% dos gestores consultados disseram que já mudaram os critérios de avaliação: hoje pesa mais saber formular bons comandos para a IA (os chamados prompts), decidir quais tarefas vale a pena delegar à máquina e testar novos jeitos de trabalhar — e menos a execução braçal da tarefa em si, que a IA ajuda a entregar pronta.
Entusiasmo não combina com clareza
O dado mais curioso da pesquisa é o contraste: apesar da dor de cabeça, 94% dos gestores dizem estar entusiasmados com o potencial da IA para melhorar o trabalho. Ou seja, ninguém quer devolver a calculadora — só querem uma régua nova para medir o que ela produz.
O recado por trás dos números é que a tecnologia está correndo mais rápido do que os processos internos das empresas conseguem acompanhar. Avaliação de desempenho, plano de carreira, meta de produtividade — tudo isso foi desenhado para medir esforço humano direto, e agora precisa ser redesenhado para medir uma parceria entre pessoa e máquina. Até lá, o gestor vira meio detetive, tentando decifrar, por trás de um texto impecável, se quem está do outro lado da tela realmente sabe fazer o trabalho sozinho — ou só sabe pedir bem.