
Como a PF usou metadados de PDF para desmontar fraude do Banco Master
Documentos do caso Banco Master tinham datas alteradas manualmente, mas as assinaturas digitais guardaram o registro real de quando foram criados — e entregaram o esquema à Polícia Federal.
Por Denise Sampaio · Repórter de Segurança
O que aconteceu
A Polícia Federal identificou que documentos ligados ao caso do Banco Master, instituição financeira que teve intervenção do Banco Central em 2025, tinham datas visíveis alteradas manualmente para simular operações mais antigas do que realmente eram. Segundo a investigação, funcionários usaram dados reais de clientes — extraídos do CredCesta, produto de crédito consignado para servidores públicos — combinados com a ferramenta de mala direta do Microsoft Word para gerar em lote 2.700 procurações em um único dia. Um arquivo interno reunia ainda 1.833 PDFs com páginas de assinatura isoladas de Termos de Consentimento, criadas por programas desenvolvidos internamente para extrair e reaproveitar páginas específicas de documentos originais.
O problema para o esquema é que apagar a data visível de um PDF não apaga o registro criptográfico da assinatura digital, gerado no momento em que o arquivo é efetivamente assinado. Foi esse descompasso que expôs a fraude: uma Cédula de Crédito Bancário trazia a data de 21 de janeiro de 2025, mas o registro da assinatura digital apontava 20 de junho de 2025 — mais de cinco meses depois. Segundo a apuração, esse tipo de operação sustentou R$ 7,15 bilhões em cessões fictícias de crédito consignado entre o Banco Master e a Tirreno Consultoria, usada para formalizar os contratos e depois repassadas ao Banco de Brasília (BRB).
Foto: reprodução/sindpd.org.br
Quem é afetado
Clientes que tiveram dados pessoais usados sem autorização nas procurações fabricadas, o Banco de Brasília, que comprou as carteiras sem lastro real, e o sistema financeiro como um todo, já que o caso Banco Master é hoje um dos maiores exemplos de fraude documental em massa investigados no país.
O que fazer agora
- Quem tem produtos de crédito consignado no Banco Master ou em instituições ligadas ao caso deve acompanhar comunicados oficiais e verificar extratos com atenção a operações não reconhecidas;
- Documentos digitais confiáveis dependem de assinatura eletrônica com carimbo de tempo certificado — é esse registro, e não a data escrita no arquivo, que vale como prova;
- Empresas que lidam com contratos em PDF devem preservar metadados originais e evitar ferramentas que permitam edição não rastreável de páginas de assinatura;
- Em caso de dúvida sobre a validade de um contrato assinado digitalmente, é possível verificar a autenticidade da assinatura eletrônica diretamente no leitor de PDF ou em plataformas de certificação.