
Como a Texas Instruments mantém um monopólio de calculadora de US$ 100
A mesma calculadora está na lista de material escolar americana desde os anos 1990, e a explicação não é só tecnologia — é currículo, prova oficial e margem de lucro.
Por Otávio Meireles · Repórter de Mercado
O número que importa: 93%
Entre julho de 2013 e junho de 2014, a Texas Instruments, gigante americana de semicondutores mais lembrada nos Estados Unidos por dominar o mercado escolar de calculadoras gráficas, respondeu por 93% de todas as calculadoras gráficas vendidas no país, segundo levantamento do economista Jadrian Wooten. Estimativas mais recentes citadas pelo site de negócios The Hustle colocam a fatia da empresa perto de 80% de um mercado que movimenta mais de US$ 300 milhões por ano — décadas depois de a companhia ter lançado seu primeiro modelo do tipo.
Como o monopólio foi construído
Foto: reprodução/thehustle.co
A TI lançou sua primeira calculadora gráfica, a TI-81, em 1992, e apostou em um movimento que garantiu décadas de receita: convencer o sistema educacional americano a exigir o aparelho. Connecticut, em 1986, foi o primeiro estado dos EUA a tornar obrigatória a calculadora gráfica em provas; em 1995, o College Board passou a permitir o uso do equipamento no SAT e nos exames AP, os principais testes de admissão universitária do país. Com o currículo escolar e as provas oficiais desenhados em torno de modelos específicos, professores passaram a recomendar sempre a mesma marca — e trocar de fornecedor virou um problema pedagógico, não só comercial.
A margem que sustenta o modelo
O TI-83, dos anos 1990, custava cerca de US$ 100 — hoje o equivalente a US$ 175 corrigidos pela inflação. Já o TI-84 Plus, lançado em 2004 e ainda vendido hoje por valor parecido, tem custo de produção estimado entre US$ 15 e US$ 20 por unidade, segundo o The Hustle — uma margem de lucro próxima de 50%, muito acima da média de 6,7% do setor eletrônico. Só até o ano 2000, a empresa já havia vendido 20 milhões de unidades a mais de US$ 100 cada.
Quem perde e quem ganha
Concorrentes como Casio e Sharp chegaram ao mercado de calculadoras gráficas antes da TI, em 1985 e 1986, e nunca conseguiram tirar sua liderança educacional nos EUA. Hoje a pressão vem de outro lugar: aplicativos gratuitos como o Desmos, calculadora gráfica online com mais de 40 milhões de usuários, começam a corroer a justificativa de pagar US$ 100 ou mais por um aparelho dedicado — mas, enquanto exames oficiais continuarem exigindo o hardware físico, o modelo de negócio da TI segue praticamente intacto.