
Como funciona a engenharia de segurança da urna eletrônica
Sistema operacional exclusivo, chips criptográficos nos periféricos e auditoria pública de código: veja como o TSE blinda as mais de 500 mil urnas que vão operar nas eleições de outubro.
Por Camila Furtado · Repórter de Smart Cities
Offline não é discurso, é arquitetura
A urna eletrônica que mais de 500 mil seções vão usar nas eleições de outubro não tem placa de Wi-Fi, entrada de rede nem qualquer conexão com a internet durante a votação — a transmissão dos boletins só acontece depois que a urna fecha, por uma rede isolada da Justiça Eleitoral, via satélite ou fibra dedicada, nunca pela internet pública. Pra quem vota, o processo é simples: botões grandes pra escolher presidente, governador, senador e deputados. Por trás, o equipamento roda o UEnux, sistema operacional baseado em Linux desenvolvido sob encomenda pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE) desde 2008 — enxuto a ponto de não ter terminal de comando exposto nem drivers genéricos que um invasor pudesse explorar.
Quem fiscaliza o que está dentro da urna
Foto: reprodução/olhardigital.com.br
Teclado, leitor biométrico e impressora térmica têm chips criptográficos próprios: só funcionam se o sistema oficial reconhecer a assinatura digital de cada peça, o que torna a troca de componente por hardware não autorizado algo detectável na hora. No centro do equipamento fica o Módulo de Segurança (MSE), descrito por especialistas como um "cofre criptográfico". Antes de cada eleição, o software passa pelo Teste Público de Segurança, é assinado digitalmente pelo TSE, pela Advocacia-Geral da União e pela OAB, e só então é lacrado em cerimônia pública em Brasília — o código-fonte fica disponível pra inspeção externa por cerca de um ano antes da votação.
O que isso custa e por que importa
O sistema homegrown tem um motivo que vai além da segurança técnica: segundo Jéferson Campos Nobre, professor do Instituto de Informática da UFRGS e membro do IEEE, manter sistema operacional e hardware próprios evita que empresas estrangeiras tenham controle sobre a infraestrutura eleitoral brasileira — uma questão de soberania, não só de blindagem contra fraude. Fica a pergunta que todo cidadão deveria fazer antes de outubro: quem, além do TSE, tem acesso a esse código durante o período de auditoria, e como o processo de lacração é verificado por partidos e imprensa na prática?