
Como um bairro de prostituição em Londres virou polo global de IA
King's Cross concentra hoje escritórios de Google DeepMind, OpenAI, Anthropic e Meta. Startups de IA já alugaram mais de 92 mil m² de escritório só neste ano, e engenheiro sênior ganha até £630 mil.
Por Otávio Meireles · Repórter de Mercado
O número que importa
Startups de IA já levantaram US$ 12,1 bilhões dos US$ 14,8 bilhões captados por todo o ecossistema de startups de Londres — mais de 80% do capital de risco da cidade concentrado num único setor. E boa parte dele tem endereço no mesmo bairro: King's Cross, que reúne DeepMind (Google), OpenAI, Anthropic, Meta, Isomorphic Labs, Synthesia, Wayve e Scale AI a poucos metros umas das outras.
De zona vermelha a "Bairro do Conhecimento"
Foto: reprodução/techcrunch.com
Até os anos 1990, King's Cross era território de tráfico de drogas e prostituição — um dos endereços mais evitados de Londres. A virada começou em 2016, quando a DeepMind, recém-comprada pelo Google, se instalou na região. Depois dela veio uma "avalanche" de startups, atraídas pela proximidade com a University College London, e a área ganhou o apelido de "Bairro do Conhecimento". O Google confirma a aposta: sua nova sede batizada de "Platform 37" — referência à estação de trem vizinha e ao "Move 37", jogada histórica da IA AlphaGo, da própria DeepMind — abre ainda este ano.
Quem ganha e quem fiscaliza a conta
Startups de IA já alugaram mais de 1 milhão de pés quadrados (cerca de 92 mil m²) de escritório na região desde junho, com taxa de vacância de apenas 0,9% — praticamente não sobra espaço comercial disponível. Isso empurrou os aluguéis 18% para cima nos últimos três anos. Um engenheiro de machine learning sênior em Londres ganha entre £260 mil e £630 mil por ano, contra uma média salarial da cidade de £102 mil — distorção que encarece toda a vizinhança para quem não trabalha em IA.
O lado da conta que ainda falta fechar é quem absorve esse custo. Moradores antigos e pequenos comércios da região não aparecem nos comunicados de expansão das empresas de tecnologia, e não há, até agora, um estudo público equivalente medindo o efeito da valorização sobre quem já morava ali antes da chegada da DeepMind.