
Concorrente do Office e do Google, LibreOffice diz que não ter IA é vantagem
A The Document Foundation, entidade sem fins lucrativos que mantém o LibreOffice, defende que a ausência de IA generativa por padrão na suíte gratuita protege a privacidade de usuários e organizações.
Por Elias Brandão · Analista de IA e ética
A tese do LibreOffice
Em bom português: enquanto Microsoft e Google correm para empilhar inteligência artificial generativa em cada canto de seus editores de texto, a The Document Foundation, organização sem fins lucrativos que desenvolve o LibreOffice, resolveu fazer o caminho contrário. Para a fundação, não oferecer IA generativa por padrão é uma vantagem — não uma lacuna a ser preenchida.
Por que a privacidade pesa tanto
Foto: reprodução/gamingonlinux.com
O argumento central é parecido com não deixar um estranho ler sua correspondência antes de você: documentos de texto frequentemente guardam prontuários médicos, processos jurídicos e dados de estudantes. Quando um recurso de IA generativa entra em cena, é preciso saber exatamente onde essas informações são processadas e quando saem do computador do usuário rumo a um servidor externo. O LibreOffice, por não ter esse recurso embutido, elimina esse ponto de risco por construção — não por promessa.
As condições para mudar de ideia
A fundação não fecha a porta para sempre, mas colocou um check-list rigoroso que qualquer futura integração de IA precisaria cumprir simultaneamente: o usuário decide onde o processamento ocorre; nada é enviado sem autorização explícita; não há telemetria escondida; o sistema aceita múltiplos provedores de IA, não um único fornecedor; o recurso é totalmente opcional; e administradores podem instalar o programa sem nenhum vestígio de IA visível. Segundo a organização, nenhuma integração de IA disponível hoje no mercado atende a todos esses critérios ao mesmo tempo.
O outro lado: o que se perde
A Microsoft integra o Copilot ao Word, Excel e PowerPoint para gerar, editar e analisar conteúdo automaticamente. O Google faz o mesmo com o Gemini espalhado pelo Workspace — Docs, Sheets, Slides, Gmail e Drive. Quem depende desses recursos de produtividade turbinada por IA sente falta no LibreOffice, que mantém Writer, Calc e Impress fiéis ao modelo tradicional. A versão 26.8 da suíte, lançada em agosto de 2026, reforçou esse posicionamento, destacando que funciona sem conexão à internet e sem enviar documentos a serviços remotos. Quem quiser IA ainda pode recorrer a extensões de terceiros com processamento local.
Dois lados da mesma moeda
A decisão divide opiniões: para uns, é atraso tecnológico; para outros, é a prova de que dá para fazer software útil sem entregar dados a terceiros. O fato é que, pelo menos por ora, a ausência de IA se tornou parte do discurso de venda do LibreOffice.
Atualização (07/10, 21:50): A The Document Foundation, entidade sem fins lucrativos que mantém o LibreOffice, diz que a suíte não é contra inteligência artificial, mas só vai adotá-la se cumprir critérios estritos de privacidade e controle do usuário.