
Conta de luz e água em alta pode apertar orçamento das cidades, alerta S&P
Analistas da S&P Global veem 'risco latente' em tarifas de energia e água que sobem mais rápido que a renda das famílias, mas identificam avanços em dívida sustentável para habitação.
Por Camila Furtado · Repórter de Smart Cities
Se a conta de luz sobe, quem sente primeiro é o orçamento da prefeitura
A lógica é simples para qualquer morador: quando a tarifa de energia ou água pesa demais no bolso, sobra menos dinheiro para outras coisas — e, em algum momento, para a arrecadação da cidade também. É esse o alerta que analistas da S&P Global, agência de classificação de risco que avalia a saúde financeira de municípios americanos, fizeram em webinar recente sobre as finanças públicas dos EUA.
Segundo a agência, as tarifas de eletricidade nos Estados Unidos subiram 38% desde 2020. Gabe Grosberg, diretor-gerente da S&P Global para o setor de utilities regulados na América do Norte, descreveu o salto como "algo que nunca vimos antes". Entre as causas apontadas estão o consumo crescente de data centers e os efeitos das mudanças climáticas sobre a infraestrutura de energia e água.
Foto: reprodução/utilitydive.com
Um risco que ainda não aparece nas notas de crédito
Para Sarah Sullivant, líder do setor de finanças públicas das Américas na S&P Global, o problema é que as tarifas de utilities já estão altas em comparação à renda das famílias em diversas regiões dos EUA — e essa conta entra, sim, na análise de risco de crédito de municípios e distritos de serviços públicos. Ainda assim, ela classifica o problema como um "risco latente" (simmering risk, no original): não é algo que já tenha derrubado notas de crédito em massa, mas que pode, com o tempo, reduzir a margem de manobra financeira das cidades.
O mecanismo é direto: se famílias e empresas evitam se mudar para regiões onde a conta de energia e água é mais cara, a base tributária local encolhe. Menos gente pagando impostos municipais significa menos dinheiro para serviços públicos — e, no limite, mais pressão sobre a nota de crédito da cidade, o que encarece futuros empréstimos.
Nem tudo é alerta: dívida sustentável cresce
A notícia não é só negativa. Alan Bonilla, diretor de finanças sustentáveis da S&P Global, destacou o crescimento de instrumentos de dívida voltados a projetos de habitação acessível — um contraponto ao cenário de aperto tarifário.
Para o cidadão brasileiro acostumado a bandeiras tarifárias e reajustes de água que também disparam acima da inflação, o recado da S&P serve de espelho: caro demais para o bolso hoje pode significar cidade endividada amanhã. A pergunta que fica é quem, nos EUA ou aqui, está de fato monitorando esse limite antes que ele vire crise de crédito.