tech & talk
Mercado11 de ago. de 2026, 00:15

Coreia do Sul cria fundo de 10 trilhões de won para disputar guerra dos chips

Seul lança fundo de 5 trilhões de won para semicondutores e outros 5 trilhões em crédito à exportação, dentro de um plano de US$ 880 bilhões que junta chips, IA e data centers.

Por Otávio Meireles · Repórter de Mercado

Compartilhar

Os números que movem a jogada

A Coreia do Sul anunciou um fundo de 5 trilhões de won (cerca de R$ 17,9 bilhões) voltado a empresas promissoras do setor de semicondutores, somado a mais 5 trilhões de won em financiamento comercial para fornecedores voltados à exportação. O dinheiro vem do chamado Future Response Fund, abastecido por receitas tributárias adicionais do próprio mercado de chips. É a aposta mais recente do governo de Lee Jae Myung para tentar transformar o país num terceiro polo relevante na disputa hoje dominada por China e Estados Unidos.

Parte de um plano bem maior

Foto: reprodução/cnn.com

O fundo bilionário não nasce sozinho. Ele se encaixa numa estratégia de dez anos apresentada por Seul que soma cerca de US$ 880 bilhões (1,35 quatrilhão de won) em investimentos público-privados para semicondutores, data centers e robótica. Desse total, Samsung Electronics e SK Hynix — junto com fornecedores — respondem pela fatia mais pesada, cerca de US$ 518 bilhões, para erguer novas fábricas na região sudoeste do país. O restante vem de programas estatais, incluindo o novo fundo de chips. O governo chama o pacote de "três megaprojetos": semicondutores, IA física e data centers, todos conectados numa mesma estratégia de longo prazo.

Água, energia e terreno para sustentar a conta

Executar um plano desse tamanho exige infraestrutura que ainda não existe. O governo sul-coreano prevê disponibilizar 650 mil toneladas de água até 2030 para o polo de semicondutores na região de Honam, e 14,7 gigawatts de energia até 2041 para atender o complexo de Yongin — um dos maiores clusters de chips do mundo em construção. Para acelerar licenciamento e obras, Seul também criou uma "Mega Special Zone", tentando reduzir a burocracia que normalmente atrasa projetos desse porte.

Foto: reprodução/tomshardware.com

Quem ganha e quem sente o aperto

Samsung e SK Hynix são as grandes beneficiadas diretas, com acesso a crédito, terreno e infraestrutura custeada pelo Estado para expandir capacidade de produção de chips de IA. Fabricantes menores de materiais, peças e equipamentos para semicondutores — o público-alvo declarado do novo fundo de 5 trilhões de won — também entram na conta, assim como startups e fornecedores exportadores. Do outro lado, o plano expõe um gargalo real: analistas já apontam que só o cluster de Yongin pode consumir energia equivalente a uma fatia relevante da demanda elétrica de toda a Seul, o que testa a capacidade do país de sustentar, na prática, uma corrida que hoje é decidida tanto em fábrica quanto em rede elétrica.

O pano de fundo geopolítico

O movimento sul-coreano ocorre num momento em que Washington e Pequim seguem travando a disputa por domínio em semicondutores avançados, cada um impondo restrições e incentivos à sua cadeia produtiva. Ao concentrar dinheiro público, infraestrutura e as duas maiores fabricantes de memória do mundo num mesmo eixo estratégico, a Coreia do Sul tenta transformar sua dependência histórica de Samsung e SK Hynix em vantagem competitiva — apostando que chips, IA e data centers vão continuar precisando uns dos outros para crescer.

semicondutorescoreia do sulsamsungsk hynixdata centers
Compartilhar