
Corte de água do Rio Colorado ameaça fábricas de chips no Arizona
O estado americano vai perder mais de 25% da água que retira do Rio Colorado a partir de 2027, justo na região onde a TSMC constrói seis novas fábricas. A empresa recicla 65% da água usada e promete chegar a 90%.
Por Otávio Meireles · Repórter de Mercado
O número que importa
760 mil acres-pé de água por ano. É essa a fatia que o Arizona vai deixar de receber do Rio Colorado a partir de 2027 — mais de um quarto de tudo que o estado costuma retirar do rio anualmente. Pra dar escala: um acre-pé abastece cerca de três residências por ano na região de Phoenix, cidade que sozinha consome perto de 300 mil acres-pé por ano. O corte é fruto de um plano final do Departamento do Interior dos Estados Unidos, divulgado em agosto, depois que os estados da bacia não chegaram a um acordo entre si — as regras atuais, batizadas de "Law of the River", vencem este ano.
Onde entra a indústria de chips
Foto: reprodução/azfamily.com
O epicentro geográfico dessa crise é também o epicentro da tentativa bipartidária americana de reviver a manufatura de semicondutores em solo próprio. A TSMC, taiwanesa que é a maior fabricante de chips por contrato do mundo e fornece processadores pra Apple e Nvidia, recebeu até US$ 6,6 bilhões em subsídios do CHIPS Act americano e decidiu construir ao menos seis fábricas em Phoenix. Só a primeira delas consome cerca de 4,75 milhões de galões de água por dia — o equivalente a mais de 14 mil residências, ou 2% do total de domicílios da cidade.
Quem ganha e quem perde
A TSMC diz reciclar 65% da água que usa no Arizona e promete chegar a pelo menos 90% quando concluir uma planta própria de tratamento. Ainda assim, o preço da água tende a subir pra empresa: Phoenix cobra a mesma tarifa de indústrias e residências, segundo Kathryn Sorensen, ex-diretora do serviço de água da cidade e hoje pesquisadora da Arizona State University. A Intel, que também tem fábricas na região, e a própria TSMC recusaram entrevistas sobre o tema — a TSMC só confirmou por e-mail que o fornecimento estável de água é "crítico" pra produção de chips.
O detalhe que ninguém quer admitir
A agricultura consome mais de 70% da água do Arizona; o uso industrial, incluindo a fabricação de chips — presente no estado desde os anos 1940 —, responde por só 6%. Ou seja, a fatia que ameaça a expansão bilionária de semicondutores é pequena diante do consumo agrícola, mas concentrada numa região que decidiu apostar todas as fichas numa única indústria. A prefeita de Phoenix reclamou que o governo federal "não ofereceu a liderança justa que a crise do Rio Colorado exige" — o que sobra é saber quem vai pagar a conta quando a torneira apertar de verdade.