
Corte de verba federal atinge transporte público e trens nos EUA
Corte de financiamento federal entra em vigor nesta quinta-feira nos EUA e deve reduzir em 20% o investimento em transporte público e em mais de 80% o de trens de passageiros, atingindo em cheio comunidades rurais.
Por Camila Furtado · Repórter de Smart Cities
O que muda nesta quinta-feira
A partir da meia-noite desta quinta-feira, expira o financiamento previsto pela Lei de Investimento em Infraestrutura de 2021 (IIJA, a grande lei de obras públicas do governo americano) para transporte público e ferrovias de passageiros nos Estados Unidos. Um projeto de lei provisório assinado pelo presidente Donald Trump em 3 de setembro mantém os programas do Highway Trust Fund (o fundo federal de rodovias) em níveis do ano fiscal de 2026, mas não renova as chamadas "apropriações antecipadas" — o mecanismo que garantia previsibilidade de repasse para estados e cidades.
Na prática, isso significa corte. Segundo a American Public Transportation Association (APTA) — a principal associação americana do setor de transporte público, referência para operadores e formuladores de política nos EUA —, a medida provisória deve resultar em queda de 20% no investimento federal em transporte público e de mais de 80% no financiamento de trens de passageiros.
Foto: reprodução/grist.org
Quem sente primeiro
A própria APTA aponta que "pequenas comunidades e cidades rurais são especialmente vulneráveis" a esse tipo de corte — justamente onde o transporte público depende quase inteiramente de repasse federal, sem a diversidade de receita própria que grandes metrópoles conseguem montar. Estados como Idaho, Dakota do Norte, Maine e Montana devem perder mais de 16% do apoio federal ao transporte. Recursos para segurança de pedestres e ciclistas também foram reduzidos, num momento em que já existem cerca de US$ 40 bilhões em manutenção de estradas atrasada nos EUA.
Com o Congresso americano só retornando em 9 de novembro, depois das eleições de meio de mandato, o impasse orçamentário deve continuar por semanas.
E por aqui?
Dá para reconhecer o enredo mesmo do outro lado do mapa: financiamento de transporte público municipal também costuma ser moeda de barganha no orçamento brasileiro, com prefeituras e estados brigando por repasse e sem fonte de receita estável para manter linhas de ônibus ou trens regionais funcionando. A diferença central é de desenho institucional — nos EUA a crise vem da falta de uma lei orçamentária aprovada em tempo; no Brasil, o problema costuma ser outro, mas o resultado prático de negligência com transporte de baixa demanda em cidades menores tende a ser parecido: linhas cortadas, frota sucateada e cidadão sem alternativa ao carro. Vale perguntar aqui também: quem fiscaliza se o dinheiro do transporte chega de fato a quem mais depende dele?