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Ciência26 de out. de 2026, 23:07

Corvos avaliam informação visual duas vezes mais rápido que mamíferos

Estudo com gralhas-pretas mostra que elas decidem sobre estímulos visuais em média 235 milissegundos, metade do tempo que primatas levam na mesma tarefa. O cérebro das aves, sem neocórtex, parece compensar com um circuito mais compacto.

Por Letícia Prado · Repórter de Ciência

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Pra escala humana

Pisque os olhos. Um piscar dura entre 100 e 400 milissegundos. Pois é mais ou menos nessa janela que um corvo olha pra uma nuvem de pontos em movimento na tela, decide pra que lado a maioria está indo e já bica a resposta certa. Na prática, é o tempo que a ave teria, em pleno voo, pra perceber um galho na frente do bico, um predador que se move ou a presa que escapa — e ainda assim escolher a reação certa sem parar pra pensar duas vezes.

O que foi confirmado

Um estudo publicado na revista Science, conduzido por Andreas Nieder, professor de Fisiologia Animal da Universidade de Tübingen, na Alemanha, e Philipp Schmidbauer, treinou duas gralhas-pretas (Corvus corone) na mesma tarefa clássica usada há décadas para medir decisão perceptual em macacos: a chamada 'random-dot motion', em que uma nuvem de pontos brancos se move na tela, parte dela de forma coerente numa direção e o resto de modo aleatório. As aves bicavam o alvo correspondente à direção percebida e ganhavam uma larva de farinha como recompensa quando acertavam.

Os pesquisadores variaram a dificuldade, com a coerência dos pontos indo de 81% (tarefa fácil) a apenas 3% (quase indistinguível de ruído visual). Os corvos usaram a mesma lógica de acúmulo de evidências que os primatas usam nesse tipo de teste, mas chegaram à decisão em média em 235 milissegundos — cerca da metade do tempo que primatas, incluindo humanos, levam em experimentos equivalentes. E a velocidade não veio à custa da precisão: a taxa de acerto se manteve alta mesmo nas rodadas mais difíceis.

O que é hipótese

O motivo evolutivo por trás dessa velocidade ainda é interpretação, não fato estabelecido. Corvos e mamíferos se separaram na árvore evolutiva há mais de 300 milhões de anos e desenvolveram estruturas cerebrais bem diferentes: em vez do neocórtex em camadas dos mamíferos, as aves têm o chamado pálio nuclear, um arranjo mais compacto de neurônios. A hipótese dos autores é que o voo impõe exigências extremas de processamento visual e coordenação sensório-motora — navegar em três dimensões, evitar obstáculos, reagir a objetos em movimento e tomar decisões rápidas para caçar ou escapar de predadores. Essa pressão ecológica pode ter favorecido um sistema nervoso otimizado para velocidade, mesmo sem a arquitetura cortical típica dos mamíferos.

O resultado reforça uma ideia que vem ganhando força na neurociência comparada: 'cérebro de passarinho' não é sinônimo de processamento lento — pode ser justamente o oposto.

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