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Ciência06 de out. de 2026, 16:36

Cratera que matou os dinossauros pode ter fervilhado de vida por milhões de anos

Novo estudo mostra que o sistema hidrotermal da cratera de Chicxulub durou pelo menos 8 milhões de anos após o impacto que extinguiu os dinossauros. Água quente e rica em nutrientes criou condições favoráveis à vida — mas organismos vivos ainda não foram confirmados.

Por Letícia Prado · Repórter de Ciência

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Pra escala humana: imagine um sistema de água quente, do tamanho de uma bacia hidrográfica inteira, borbulhando por baixo da terra continuamente — não por décadas, não por séculos, mas por 8 milhões de anos seguidos. Foi isso que um grupo internacional de pesquisadores encontrou embaixo da cratera de Chicxulub, no México, o buraco de 180 km deixado pelo asteroide que varreu os dinossauros do mapa há 66 milhões de anos.

O que foi confirmado

O estudo, intitulado "A long-lived impact-generated hydrothermal system at the Chicxulub impact structure", foi publicado na Communications Earth & Environment, revista do grupo Nature, e liderado por Annemarie E. Pickersgill, do SUERC (Scottish Universities Environmental Research Centre), ligado à Universidade de Glasgow. A equipe reuniu também pesquisadores de instituições como a USRA (Universities Space Research Association) e a Universidade Purdue.

A metodologia partiu de amostras de feldspato potássico retiradas do anel de pico da cratera — a estrutura rochosa soerguida no centro do impacto —, coletadas durante a expedição de perfuração internacional de 2016. Usando datação por argônio-argônio, técnica similar à aplicada em rochas lunares, os cientistas mediram quando os minerais formados pela água quente efetivamente se cristalizaram. O resultado: idades que vão de 66 milhões de anos (o impacto) até cerca de 58 milhões de anos atrás, indicando um sistema hidrotermal ativo por pelo menos 8 milhões de anos — cerca de quatro vezes mais do que estimativas anteriores, que apontavam algo em torno de 2 milhões de anos. É, segundo os autores, o sistema hidrotermal gerado por impacto mais duradouro já documentado na Terra.

O que ainda é hipótese

Aqui a reportagem precisa ser honesta: o estudo não encontrou fósseis de micro-organismos nem confirmou vida dentro da cratera. O que ele mostra é que existiram, por um período muito longo, as condições físico-químicas consideradas favoráveis à vida — água circulando em rochas fraturadas e porosas, calor e nutrientes dissolvidos formando nichos protegidos. Pesquisas anteriores, feitas a partir do mesmo material de perfuração, já haviam identificado estruturas minerais compatíveis com atividade microbiana (como framboides de sulfeto), mas a ligação direta entre o sistema hidrotermal de longa duração agora datado e a presença efetiva de organismos continua sendo inferência, não prova.

"Onde quer que haja água morna fluindo na Terra, encontramos vida", resume Pickersgill — mas ela mesma reconhece que a nova datação amplia a janela de oportunidade para que reações pré-bióticas e colonização microbiana tenham acontecido, sem fechar a questão.

Por que importa

Se crateras de impacto conseguem manter água quente circulando por tanto tempo, elas se tornam candidatas interessantes a berços de vida — tanto na Terra primitiva, logo após o bombardeio intenso de asteroides, quanto em outros corpos do Sistema Solar, caso de Marte, que tem seu próprio histórico de crateras de impacto antigas.

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