
Criadores de cinema no YouTube apanham por promover IA da Higgsfield
Matti Haapoja e Sam "Kold" Kolder viraram alvo da própria comunidade ao estrelar vídeos com o gerador de vídeo Seedance 2.5, da Higgsfield. O caso reacende a discussão sobre publicidade disfarçada e o limite entre inovação e propaganda.
Por Elias Brandão · Analista de IA e ética
Quando o cineasta vira garoto-propaganda
Imagine seu professor de cinema favorito, aquele que sempre defendeu luz natural e roteiro bem escrito, aparecendo num vídeo dizendo que o futuro do audiovisual é apertar um botão e deixar a máquina fazer o trabalho. Foi mais ou menos essa a sensação que boa parte da comunidade de criadores teve ao ver Matti Haapoja e Sam "Kold" Kolder, dois nomes respeitados no universo do filmmaking no YouTube, publicarem vídeos elogiando a Higgsfield e seu recurso mais recente, o Seedance 2.5, segundo reportagem do The Verge.
A Higgsfield é uma plataforma de geração de vídeo por IA que vem tentando se firmar como ferramenta de produção audiovisual de ponta. O Seedance 2.5, sua funcionalidade mais nova, promete cenas em alta definição com controle de câmera e até áudio sincronizado — em bom português, é a promessa de transformar um texto em cena de filme sem precisar de câmera, elenco ou locação. Os vídeos de Haapoja e Kolder apresentavam essa tecnologia como "o futuro da produção de vídeo".
A comunidade não comprou o discurso
O problema não foi exatamente elogiar uma ferramenta nova — isso qualquer criador de tecnologia faz o tempo todo. O estopim foi a suspeita de que o entusiasmo não era espontâneo. Outros criadores começaram a compartilhar prints de propostas de parceria enviadas por assessorias de imprensa a serviço da Higgsfield, o que levou parte do público a concluir que a empresa estava comprando a boa reputação de nomes influentes para se legitimar.
Essa desconfiança não nasceu no vácuo. Segundo apuração publicada pela Forbes, a Higgsfield chegou a oferecer 200 dólares a influenciadores para republicarem posts da empresa nas redes — uma campanha que rodou entre 3 e 6 de fevereiro e que, para críticos, infringe as diretrizes da FTC (agência reguladora de publicidade dos EUA) sobre divulgação de conteúdo pago. A própria plataforma X chegou a suspender a conta da empresa, em episódio à parte mas que reforçou a imagem de marketing agressivo e pouco transparente associada à Higgsfield.
Dois lados da mesma tela verde
Do lado dos criadores, o argumento é conhecido: testar e comentar ferramentas novas faz parte do ofício, e parcerias pagas são normais quando devidamente sinalizadas. Do lado da comunidade e de quem vive de publicidade no mercado audiovisual, a cobrança é igualmente legítima — quando o pagamento não é declarado, o espectador perde a capacidade de separar opinião de anúncio, e isso mina a confiança que sustenta o próprio ofício de criador de conteúdo.
No fim, o episódio expõe uma tensão que vai se repetir: quanto mais a IA generativa de vídeo avança, mais dinheiro as empresas do setor terão para gastar tentando comprar credibilidade — e mais afiado precisa ficar o olhar do público para notar a diferença entre recomendação genuína e publicidade travestida de opinião.