
Crise de lançamentos deixa operadores de satélite em pânico
SpaceX parou de aceitar reservas de Falcon 9 para depois de 2028 e apostou tudo no Starship, e o setor de pequenos satélites já sente o gargalo em preços e prazos.
Por Letícia Prado · Repórter de Ciência
Pra escala humana: imagine reservar um caminhão de mudança e descobrir que a transportadora só tem vaga daqui a três anos
É mais ou menos o que operadores de pequenos satélites estão enfrentando agora. Segundo reportagem da Bloomberg publicada em julho, a SpaceX começou a recusar novas reservas dedicadas de Falcon 9 para missões além de 2028 — e também parou de aceitar reservas futuras para o programa de caronas compartilhadas Transporter. A empresa também suspendeu a fabricação de alguns componentes não reutilizáveis do Falcon, como o estágio superior do foguete, uma aposta explícita de Elon Musk no ainda não totalmente operacional Starship.
O que já é fato
Uma reportagem da SpaceNews mostra o efeito prático dessa retração: o manifesto da missão Waymaker, da empresa SEOPS, ficou lotado três semanas depois de anunciado, com cerca de 30 clientes em lista de espera. Segundo o consultor espacial Keith Masback, citado na reportagem, "chegamos num ponto onde o lançamento não alcançou o custo nem a frequência que o setor antecipou". Já Valentin Benoit, da francesa RIDE! Space, resume o desequilíbrio: "há enorme demanda por acesso ao espaço, talvez sem oferta suficiente" — com expectativa de que o aumento de preços supere qualquer redução de custo.
Os números confirmam o aperto: em 2025 os Estados Unidos registraram 179 lançamentos, mas a frequência de algumas rotas de pequenos satélites caiu de 6-8 missões anuais para 3-5. O preço por quilograma lançado, hoje em torno de US$ 8 mil, deve subir. Operadores que antes planejavam com 12 meses de antecedência agora buscam garantir vaga com até 36 meses de antecipação.
Quem mais está no jogo
Além da SpaceX, empresas como Arianespace (com o Ariane 6), Blue Origin (New Glenn), Rocket Lab e Firefly Aerospace aparecem como alternativas de lançamento citadas pelo setor, enquanto a Exolaunch teria adquirido dois Falcon 9 para tentar garantir capacidade própria.
O que ainda é hipótese
A Bloomberg pondera que a SpaceX deve continuar usando o Falcon 9 para contratos com o Departamento de Defesa dos EUA e a Nasa, e que os planos podem mudar — inclusive por causa de atrasos no desenvolvimento do Starship. Se o novo foguete não estiver operacional até o fim de 2028 e a produção do Falcon não for estendida, o setor de satélites pode enfrentar uma escassez real de capacidade de lançamento pesado. Por ora, é um risco identificado pela indústria, não um desfecho garantido.