
Custo alto e regras travam compras públicas nos EUA, mostra pesquisa
Levantamento da Euna Solutions com 100 profissionais de compras públicas na América do Norte mostra que mais de 40% dos setores não estão prontos para adotar inteligência artificial.
Por Camila Furtado · Repórter de Smart Cities
Comprar para o governo ficou mais caro e mais burocrático
Quem fiscaliza uma licitação sabe: erro em compra pública não é só prejuízo de planilha, é serviço que atrasa para o cidadão. Uma pesquisa da Euna Solutions, empresa de software para o setor público na América do Norte, com 100 profissionais de compras públicas (procurement) nos EUA e Canadá, mostra que o aumento de custos voltou a ser, pelo terceiro ano seguido, o principal desafio externo do setor: 74% dos entrevistados citaram o encarecimento de bens e serviços como problema central.
O levantamento, feito em junho de 2026, ouviu profissionais de diferentes esferas — 45% vinham de governos municipais, e o restante de áreas como educação e agências estaduais e federais. Além do custo, 55% relataram cortes ou estagnação de orçamento, e 48% apontaram incerteza econômica geral como obstáculo.
IA sim, mas ninguém está pronto
O dado que mais chama atenção é sobre inteligência artificial: 39% dos profissionais dizem querer ou estar abertos a usar IA no trabalho, mas 41% dos respondentes afirmam não estar confiantes de que seus departamentos estão preparados para implementar a tecnologia. Só 17% se dizem muito confiantes.
Para Danielle Mouw, analista de compras públicas da Administração de Serviços Gerais dos EUA (GSA, a agência federal responsável por compras do governo americano), e Jaime Gracia, diretor de assuntos corporativos da consultoria The Wolverine Group, o gargalo não é falta de interesse, mas de infraestrutura de dados: departamentos que ainda dependem de planilhas, e-mail e sistemas desconectados precisam modernizar a base antes de a IA produzir resultado confiável.
Conformidade pesa mais que a tecnologia
Internamente, o principal problema apontado não é tecnológico, e sim regulatório: 46% citam a conformidade com regras como sua maior preocupação — a pesquisa descreve isso como "o peso mental que a gestão de compliance impõe a equipes já sobrecarregadas". Outros 42% mencionam pedidos não planejados e dificuldades de gestão orçamentária no dia a dia.
Como resposta, a prioridade das equipes é otimizar e automatizar processos — citada por 50% pelo terceiro ano consecutivo — seguida por estratégias de redução de custo, mencionada por 40%. Retenção e recrutamento de pessoal qualificado aparece para 33% dos respondentes.
Um dos entrevistados resumiu o risco do setor: "em compras públicas, um pequeno erro pode ter impactos significativos em contribuintes, fornecedores e operações municipais". A frase vale tanto para uma prefeitura americana quanto para qualquer licitação brasileira: cada real ou dólar mal empregado numa compra pública é dinheiro que sai do bolso de quem paga imposto — e a pergunta que fica é se os sistemas de fiscalização estão evoluindo na mesma velocidade que a pressão por eficiência.