
Cybercab da Tesla não tem volante, mas esconde um joystick virtual
Menos de uma semana após estrear em Austin, o robotaxi sem volante e sem pedais da Tesla revelou, por uma falha de software, um joystick escondido na tela central que permite mover o carro manualmente.
Por Bruno Vilela · Repórter de Gadgets
O achado
Passageiros do robotaxi Cybercab, da Tesla, fabricante americana de veículos elétricos liderada por Elon Musk, encontraram algo que a empresa nunca havia mostrado publicamente: um joystick virtual escondido na tela central do carro, capaz de mover o veículo manualmente. O achado, relatado pelo empreendedor Matthew Skrzypczak em vídeo publicado em 7 de setembro, aconteceu menos de uma semana depois de o Cybercab começar a rodar oficialmente nas ruas de Austin, no Texas, em 3 de setembro.
A gente sempre repetiu a mesma frase de efeito da Tesla: o Cybercab não tem volante, não tem pedal, não tem espelho — é o robotaxi "de verdade", pensado do zero para não precisar de motorista. Pois bem: parece que, debaixo do capô de software, sempre existiu um plano B.
Como funciona (ou devia funcionar)
Segundo o relato, a tela central do carro exibiu, por uma falha rara de software, uma interface dividida: de um lado, um joystick para mover o veículo para frente ou em marcha à ré, arrastando o dedo pela tela; do outro, a visão das câmeras ao redor do carro. Também apareciam botões para parar o veículo, buzinar e abrir as portas manualmente. Os passageiros conseguiram arrastar o controle na tela e viram a interface reagir ao toque — mas o carro não se moveu, sinal de que o sistema de back-end bloqueia o uso não autorizado do recurso.
Faz sentido: mesmo um carro pensado para nunca ter um humano ao volante precisa, às vezes, ser empurrado — para sair de uma vaga apertada ou ser reposicionado num pátio. Sem volante físico, a solução da Tesla foi virtualizar esse controle dentro do próprio painel, aparentemente reservado a funcionários e equipes de pátio.
O que muda na prática
O timing não podia ser pior para a Tesla. No mesmo dia do lançamento em Austin, a NHTSA, agência reguladora de segurança rodoviária dos EUA, abriu investigação sobre cerca de mil unidades do Cybercab, questionando o processo pelo qual a empresa autocertificou que o carro dispensa itens como volante, pedais e espelhos exigidos pelas normas federais.
Não é ilegal existir um modo de manutenção escondido — a maioria dos carros autônomos tem algo parecido. O problema é a mensagem: a Tesla vendeu o Cybercab como prova de que dirigir sem controles humanos é seguro e definitivo, e a primeira semana de uso já expõe uma falha que reacende a dúvida sobre o quanto do sistema é robusto e quanto é confiança no discurso. Fica a pergunta que sempre fazemos por aqui: vale o preço da promessa? Porque, no fim, o consumidor não compra especificação — compra confiança de subir num carro sem volante e saber que, se algo der errado, alguém tem controle da situação.
Atualização (09/09, 15:59): Um jornalista do site The Verge passou cerca de uma hora andando de Cybercab por uma área geocercada de aproximadamente 288 milhas quadradas (746 km²) em Austin, no Texas, e relatou uma experiência "em partes iguais angustiante e tranquilamente entediante". Em um dia ensolarado de 95°F (35°C), os limpadores de para-brisa do carro ligaram sozinhos sem motivo aparente durante a primeira corrida, e em um viaduto rumo ao centro da cidade o veículo trocou de faixa de forma incorreta, quase forçando uma conversão à esquerda para a rodovia antes de se corrigir — não sem que alguns carros precisassem desviar. O jornalista descreveu a condução do software de piloto autônomo como a de "um adolescente meio doidão", que freia nervosamente, oscila indecisamente entre faixas e parece se questionar sobre as próprias decisões.
A reação de pedestres e outros motoristas nas ruas também chamou atenção: crianças e pedestres paravam para apontar, surpresos ao ver alguém sentado no banco do motorista sem volante, e um motorista vizinho chegou a abaixar o vidro para perguntar, incrédulo, se não havia volante — ao saber que também não havia pedais, reagiu com espanto. O ponto mais problemático da experiência foi o desembarque perto da piscina Barton Springs, onde o carro bloqueou parcialmente uma via estreita e ficou parado com os alertas piscando enquanto outros motoristas se acumulavam e se frustravam ao redor. As esperas pelo carro também foram longas: a primeira corrida, de menos de dois quilômetros por 15 dólares, exigiu mais de 45 minutos de espera, e as duas corridas seguintes tiveram esperas de 40 e 25 minutos.