
Da luta à fábrica: os robôs que a China quer colocar no mundo
World Robot Conference reúne mais de 300 empresas em Pequim e mostra robôs para indústria, logística, saúde e tarefas domésticas. Evento coincidiu com estreia bilionária da Unitree na bolsa de Xangai.
Por Letícia Prado · Repórter de Ciência
Pra escala humana: em um único pavilhão de Pequim, dá pra ver um robô cão farejando gás em ambientes de mineração ao lado de um humanoide de 1,35 metro escalando obstáculos — e, na saída, uma "rua de consumo" onde o visitante experimenta na prática os mesmos robôs que, em poucos anos, podem estar embalando sua encomenda ou cuidando de um idoso.
O que está confirmado
A World Robot Conference 2026 abriu em 19 de agosto no Beiren Etrong International Exhibition & Convention Center, em Yizhuang, Pequim, com programação de cinco dias. Mais de 300 empresas participam do evento — um crescimento de 69% em relação à edição anterior —, com mais de 3.000 produtos expostos, incluindo mais de 300 lançamentos inéditos. O evento reúne mais de 70 atividades com apoio de 30 organizações internacionais, sob o tema "Simbiose Humano-Robô, Convergência entre Produção e Demanda".
Os robôs em exibição cobrem manufatura, alimentação e varejo, saúde e cuidados com idosos, e resgate de emergência, além de tarefas de logística e uso doméstico. Entre os destaques está o Tiangong Omni, humanoide de 1,35 metro e 39 quilos capaz de escalar, caminhar, rastrear objetos e até imprimir; um robô gigante de 4 metros com tecnologia hidráulica digital, pensado para manutenção nuclear, operações submarinas e transporte de cargas pesadas; e robôs em formato de cão equipados com lidar, câmeras infravermelhas e sensores de gás, voltados a ambientes perigosos de mineração. Pela primeira vez, o evento tem uma "rua de consumo" para testes práticos de produtos e serviços robóticos.
O timing da conferência coincidiu com um marco de mercado: no mesmo 19 de agosto, a fabricante chinesa de robôs Unitree estreou na bolsa de Xangai (mercado STAR, ticker 688836.SH), com ação precificada a 150,80 yuans (US$ 22,41) e captação de cerca de 6,099 bilhões de yuans (US$ 910 milhões). No pregão de estreia, as ações chegaram a disparar até 629% na máxima do dia, fechando com alta de 460%, a 845 yuans — tornando a Unitree a primeira fabricante de robôs humanoides de capital aberto da China continental.
O que é plano ou hipótese
A China descreve a conferência como vitrine de uma indústria robótica que deixa de ser experimental para virar negócio: a Unitree afirmou que os recursos da oferta pública serão usados em pesquisa e desenvolvimento avançado e na expansão de sua base fabril, mas a curva de adoção em massa desses robôs em fábricas, hospitais e casas ao redor do mundo ainda é projeção do setor, não fato consumado. O fundador da Unitree chegou a comentar que o "momento ChatGPT" dos robôs humanoides — o salto que os tornaria mainstream — pode estar a dez anos de distância, uma estimativa pessoal, não um cronograma da indústria.