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Ciência21 de ago. de 2026, 14:22

Dá pra resfriar data center com xixi? A piada de Jason Kelce tem lastro técnico

Uma campanha publicitária pediu para consumidores mandarem urina para data centers de IA. A ideia é piada, mas o problema que ela ataca — o consumo de água potável no resfriamento — é real.

Por Letícia Prado · Repórter de Ciência

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Pra escala humana: um data center bebe mais água que uma cidade pequena

A campanha publicitária da Liquid Death com a Garage Beer, estrelada pelo ex-jogador de futebol americano Jason Kelce, pede que consumidores enviem urina em potes para resfriar data centers de inteligência artificial. O comercial é uma sátira: “data centers de IA desperdiçam milhões de galões de água. Por isso a Liquid Death e a Garage Beer se uniram. Queremos seu xixi para resfriar esses data centers”, diz a peça, que também vende um “coletor de líquido refrigerante para data center” por US$ 18.

A piada nasceu para chamar atenção a um problema real de escala.

Foto: reprodução/tomshardware.com

O que é confirmado: o consumo de água é enorme

Em Loudoun County, na Virgínia — região com a maior concentração de data centers dos Estados Unidos —, mais de 250 instalações já operam, com planos para outras duas dezenas. Juntas, consomem diariamente cerca de 200 milhões de galões de água reciclada (43% do total) e 260 milhões de galões de água potável (57% do total), segundo dados levantados pela reportagem do TechCrunch.

Esse uso já é parcialmente resolvido com água reciclada tratada por biorreatores de membrana, osmose reversa e luz ultravioleta, além do resfriamento evaporativo, técnica em que ar quente passa por água para perder calor.

O que é hipótese: substituir água potável por urina direta

Aqui a ciência trava. Bruno Pigott, da WateReuse Association, explica que urina “contém todo tipo de coisa: sais, ureia, bactérias, matéria orgânica de todo tipo que pode deixar depósitos minerais” nos sistemas de resfriamento. Ou seja, urina bruta não é solução técnica viável — precisaria do mesmo tratamento industrial já aplicado a esgoto.

Michael Obradovitch, da Ecolab, confirma que fontes alternativas de água já são usadas em escala semelhante à água potável para resfriar data centers — mas fala de água de reúso tratada, não de coleta doméstica de urina.

Há ainda um obstáculo de infraestrutura, segundo Greta Zornes, da CDM Smith: data centers precisam estar perto de estações de tratamento de esgoto grandes o bastante para fornecer volume, o que nem sempre acontece em áreas rurais, onde essas instalações costumam se expandir.

O contexto por trás do meme

A Meta anunciou pelo menos US$ 270 milhões em projetos de infraestrutura de tratamento de água perto de seus data centers. Nos EUA, tramita legislação que ofereceria crédito fiscal de 30% para indústrias que ampliarem infraestrutura de reúso de água.

O pano de fundo da provocação é a rejeição pública crescente: pesquisa da Gallup mostra que sete em cada dez americanos se opõem à instalação de data centers perto de onde moram.

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