
Data center de IA em Sumaré: o que a obra da Ascenty custa e entrega
Em Sumaré, a 30 km de Campinas, a Ascenty ergue o primeiro complexo de data center do Brasil dedicado só à infraestrutura de IA. A conta é bilionária — e cabe perguntar quem fiscaliza esse investimento e o que ele muda para o cidadão.
Por Camila Furtado · Repórter de Smart Cities
Uma obra que resume o momento do país
Enquanto o mundo discute regulação e uso de inteligência artificial, o Brasil está construindo, literalmente, a infraestrutura física que sustenta essa tecnologia. Em Sumaré, no interior de São Paulo, a poucos quilômetros de Campinas, a Ascenty — joint venture entre Digital Realty e Brookfield Infrastructure — constrói o primeiro complexo de data center do país dedicado exclusivamente a cargas de trabalho de IA.
Quanto custa e quem paga a conta
Foto: reprodução/datacenterdynamics.com
O investimento anunciado pela Ascenty para expandir quatro unidades voltadas à IA na região de Campinas é de US$ 1,2 bilhão, formando um bloco de 150 MW de capacidade — mais de 40% de tudo que a empresa construiu em 15 anos de história, segundo a companhia. Os projetos já estão pré-alugados por gigantes como Microsoft e Oracle, o que ajuda a explicar a velocidade da obra, mas também levanta a pergunta que interessa ao cidadão de Sumaré: o retorno desse investimento fica na cidade, em empregos e infraestrutura local, ou o benefício concentrado é das nuvens corporativas que vão consumir essa energia?
A escala do apetite por energia
Um rack de data center dedicado à IA pode consumir entre 60 kW e 1.000 kW — uma demanda elétrica muito acima da de um data center tradicional. Globalmente, o consumo de data centers deve saltar de 115 GW em 2025 para uma faixa de 240 a 280 GW até 2030, segundo estimativas do setor citadas pela reportagem original. Esse salto joga a discussão para outro terreno: de onde virá a energia para abastecer essa nova geração de data centers, e qual é o plano de expansão da rede elétrica na região de Campinas para suportar isso sem apagão para quem já mora ali?
Brasil na disputa regional — mas com que fiscalização?
O país já concentra cerca de 48% da capacidade instalada de data centers em operação na América Latina e 71% do que está em construção na região, o que coloca o Brasil, segundo estimativas do setor, na 12ª posição no ranking global. É uma posição de destaque diante de vizinhos como Chile e México, que também disputam esse mercado. Mas escala não é sinônimo de governança: falta clareza pública sobre como municípios como Sumaré fiscalizam contrapartidas ambientais, uso de água para refrigeração e impacto na conta de luz da população durante a instalação desses complexos. Antes de comparar o Brasil a Virginia ou Dublin — hubs consolidados de data center no mundo —, seria bom que a própria Sumaré tivesse um canal claro de prestação de contas sobre o que essa obra bilionária realmente devolve à cidade.