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CiênciaIA23 de out. de 2026, 10:11

Data centers de IA podem apagar 20 anos de ar limpo no Texas

Relatório da Houston Advanced Research Center projeta que a corrida por infraestrutura de IA pode devolver o Texas a níveis de poluição do ar dos anos 2000, dependendo de como as usinas que alimentam os data centers forem construídas.

Por Letícia Prado · Repórter de Ciência

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Pra escala humana

Pra escala humana: os 288 data centers de inteligência artificial planejados no Texas, somados, teriam uma demanda de energia de cerca de 439 gigawatts — mais ou menos um terço de toda a eletricidade gerada nos Estados Unidos hoje. É esse apetite que está no centro de um novo relatório da Houston Advanced Research Center (HARC), organização de pesquisa ambiental sediada no próprio estado, divulgado em 20 de outubro.

O que está confirmado

Foto: reprodução/texastribune.org

O relatório da HARC projeta dois cenários até 2031. No mais otimista, em que os data centers se conectam à rede elétrica geral e usam energia eólica e solar, as emissões de óxidos de nitrogênio (NOx) — um dos principais formadores de smog — ainda assim subiriam 35%. No cenário em que as empresas optam por gerar sua própria energia com motores a gás natural no local, essas emissões poderiam saltar até 136%, devolvendo o Texas a níveis de poluição por NOx que não eram vistos desde 2004.

Ainda segundo o levantamento, o material particulado fino (PM2.5) ligado ao setor elétrico voltaria a patamares de 2006, compostos orgânicos voláteis ficariam 32% acima dos níveis de 2002, e as emissões de CO2 subiriam 90% em relação a 2025 — tudo isso no cenário de geração a gás natural, hoje a opção mais rápida para destravar energia sem esperar anos na fila da rede elétrica.

Um motor a gás natural isolado emite cerca de quatro vezes mais NOx do que a mesma quantidade de energia puxada da rede, segundo o relatório. Com 32 usinas a gás já planejadas para alimentar data centers no estado — mais do que qualquer outro território americano —, a escolha de cada empresa pelo tipo de fonte energética passa a pesar diretamente no ar que se respira em Houston, Dallas-Fort Worth, San Antonio e Austin, cidades que já frequentemente ultrapassam os padrões federais de poluição.

Diante da pressão, o governador Greg Abbott determinou em agosto uma pausa temporária em novas conexões de data centers à rede elétrica estadual, para que os reguladores ERCOT e PUCT auditem consumo de energia, uso de água e impactos nas comunidades antes de liberar novos projetos.

O que é projeção, não fato consumado

Os números de aumento de poluição são modelagens para 2031, não medições do ar hoje. Dependem de decisões que as empresas de tecnologia ainda vão tomar sobre como energizar seus data centers — e da velocidade com que a rede elétrica texana conseguir, ou não, absorver essa demanda crescente, que nos últimos dois anos gerou mais de 500 pedidos de conexão, contra pouco mais de duas dezenas no período anterior.

Carlos Gamarra, vice-presidente de energia, ar e tecnologia da informação da HARC, resume o alerta do relatório: a entidade defende que os data centers passem a ser tratados como instalações industriais no planejamento de qualidade do ar, para não repetir um retrocesso que o Texas levou duas décadas para reverter.

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