
Data centers de IA podem elevar poluição de CO2 dos EUA em 42% até 2030
Análise do Sierra Club mostra que usinas a gás construídas para alimentar data centers de IA ameaçam anular 15 anos de redução de emissões no setor elétrico americano.
Por Letícia Prado · Repórter de Ciência
Pra escala humana
Imagine pegar todo o CO2 que o México — um país de mais de 125 milhões de habitantes — expele para a atmosfera em um ano inteiro. Esse é o tamanho só da fatia "extra" de poluição que os data centers americanos, nos cálculos mais recentes, vão adicionar ao ar até 2030, segundo uma nova análise do Sierra Club, uma das maiores organizações ambientalistas dos EUA, fundada em 1892 e com cerca de 1,4 milhão de membros.
O que é confirmado
Foto: reprodução/claimsjournal.com
Segundo a análise do Sierra Club, o setor elétrico dos Estados Unidos pode emitir 2,1 bilhões de toneladas métricas de CO2 até 2030 — um salto de 618 milhões de toneladas, ou 42%, em relação aos níveis de 2025. O motivo é a corrida para construir usinas a gás natural que deem conta da demanda elétrica disparada pelos data centers de inteligência artificial.
Mais de 460 milhões de toneladas desse aumento vêm de um tipo específico de instalação: as usinas "bring-your-own-power" (algo como "traga sua própria energia"), plantas a gás fora da rede elétrica pública que empresas de tecnologia e operadoras de data center estão erguendo para não precisar esperar na fila de conexão à rede, hoje notoriamente lenta. É justamente essa fatia "fora da rede" que, segundo o levantamento, se aproxima das emissões anuais de todo o México.
O Sierra Club afirma que esse ritmo de construção ameaça anular 15 anos de ganhos na redução de emissões do setor elétrico americano — progresso que vinha sendo construído com o fechamento de usinas a carvão e a expansão de renováveis.
Jeremy Fisher, assessor principal de clima e energia do Sierra Club, disse que, um ano e meio atrás, a própria organização projetava um impacto de apenas um quarto ou metade do que calcula agora. "Os números continuam a nos deixar boquiabertos", afirmou.
O que ainda é estimativa
Os 2,1 bilhões de toneladas e o salto de 42% são projeções baseadas em projetos de data centers anunciados ou em planejamento — não emissões já realizadas. Quanto desse volume de infraestrutura de fato sairá do papel até 2030 depende de fatores como velocidade de licenciamento, disponibilidade de turbinas a gás (setor com fila de espera global) e eventuais mudanças de rota das próprias empresas de tecnologia rumo a outras fontes de energia, como nuclear ou solar com baterias.
Outros analistas reforçam o alerta sem necessariamente validar o número exato: Brendan Pierpont, diretor de eletricidade da Energy Innovation, grupo de pesquisa em política energética, apontou "risco de emissões suficientes para nos retroceder vários anos de progresso", enquanto Helen Kou, analista da BloombergNEF, braço de pesquisa em energia da agência financeira Bloomberg, avalia que o crescimento expressivo da geração a gás "presumivelmente aumentaria as emissões" — sem cravar magnitude.