
Data centers de IA vão às urnas: 41 votações locais testam limites nos EUA
Moradores de dez estados americanos decidem em 3 de novembro se querem data centers na vizinhança, com Ohio concentrando mais da metade das disputas. O resultado pode redesenhar quem manda no zoneamento: a cidade ou o estado.
Por Camila Furtado · Repórter de Smart Cities
Quem decide se um data center pode ser vizinho de quem
Em 3 de novembro, eleitores de dez estados dos EUA vão às urnas para responder a uma pergunta que, até pouco tempo, nunca aparecia em cédula municipal: você quer um data center de inteligência artificial na sua cidade? Ao todo, 41 medidas sobre o tema estão em votação, parte de um pacote maior de pelo menos 49 propostas relacionadas a data centers espalhadas por 13 estados americanos em 2026.
Das 41 medidas de novembro, 17 propõem proibir a construção de novos data centers e 8 querem dar aos governos locais mais poder para autorizar ou travar projetos. Segundo o site especializado Smart Cities Dive, das seis votações sobre o tema já decididas neste ciclo eleitoral, todas as seis resultaram em algum tipo de limitação ao setor.
Foto: reprodução/time.com
Ohio concentra o epicentro da revolta
Mais da metade das votações de novembro — 21 medidas — está em Ohio, estado que já abriga 257 data centers e onde 138 municípios aprovaram moratórias à espera de regras mais claras. Outras 23 comunidades já baniram os empreendimentos na prática. Uma pesquisa da Bowling Green State University, universidade pública de Ohio, apontou que quase 80% dos moradores do estado apoiam alguma forma de moratória. Em paralelo, tramita uma proposta de emenda constitucional estadual que proibiria data centers com demanda elétrica agregada acima de 25 megawatts.
Em Clarksville, no Arkansas, a disputa toma outra forma: em 1º de dezembro, os moradores votam especificamente sobre títulos de dívida ligados a um projeto de data center, ou seja, sobre quem vai pagar a conta da infraestrutura.
Quem fiscaliza a conta de luz e de água
A resistência não tem cor partidária: segundo o Smart Cities Dive, eleitores de ambos os espectros políticos vêm se opondo aos projetos, em meio a US$ 45 milhões gastos em anúncios que mencionam data centers entre janeiro e setembro. Para Mark Muro, pesquisador do Brookings Metro — centro de estudos americano que analisa políticas urbanas e econômicas —, a insatisfação reflete uma sensação mais ampla: "as pessoas parecem sentir que têm pouca voz sobre como a inteligência artificial está sendo implementada". Já Ishyan Veluppillai, da consultoria Capstone, defende que as moratórias são uma forma de as comunidades regularem adequadamente o setor.
O resultado de novembro deve servir de termômetro para 2027: se as proibições locais se confirmarem nas urnas, legislaturas estaduais podem se sentir pressionadas a ampliar — ou a restringir — a autonomia dos municípios para dizer não a esses gigantes de servidores que consomem energia e água em volume comparável ao de pequenas cidades.